O quarto de van Gogh em Arles

Vincent Willem van Gogh, de alguns motivos pictóricos, realizou versões, entre as quais seu quarto na “casa amarela”, em Arles. Estas versões foram pintadas em 1888 e 1889, a pri­meira naquela cidade e a segunda em Saint-Rémy, cidade em que morou por algum tempo depois do episódio da orelha corta­da. Apesar do tempo que separa as pinturas, pouca coisa as dife­rencia. A estrutura é a mesma, com mudanças apenas em deta­lhes secundários e na espessura da tinta e suas gradações, reve­lando mais intensidade e luminosidade. Em ambas as pinturas a idéia original foi mantida intacta com a expressão de um ambi­ente de repouso temporário, pois van Gogh viveu um estado de espírito vigilante entre a calma e a tensão, predominando a ten­são e a calma como um anseio permanente. É como se uma coi­sa determinasse a outra, como se a tensão após o seu fastígio proporcionasse uma extrema quietude que o pintor denominou de “uma sensação do perfeito repouso”.

A inquietação de van Gogh foi proveniente da ansiedade subliminar provocada pela finitude, levando-o ao desejo de li-bertar-se da arbitrariedade, do contingente. Van Gogh, assim e antecipadamente, realizou os fundamentos do expressionismo, que além disso restitui a experiência vivida, seja antiga ou re­cente, situando valores que se referem à imanência da expres­sividade, metafísica e visionária, que em seu caso denota a pro­ximidade da catástrofe. Mesmo com toda literatura sobre a su­posta loucura de van Gogh, é fatual a lucidez exatamente no período final de sua vida, marcada por exaltações provocadas pelo crescente isolamento social e artístico. É na “casa amare­la” que van Gogh começou a pensar numa associação de pinto­res impressionistas como a maneira única e efetiva de fazer frente à miséria e à incompreensão. Na prática, pouco aconte­ceu no “ateliê do sul”, se bem Gauguin, atraído pela idéia, vi­veu e trabalhou com van Gogh por breve tempo. Os resultados foram desastrosos. Após discussões sobre pintura e sobre uma mulher, Gauguin, vendo-se ameaçado por van Gogh – que cor­tou a orelha – retornou a Paris. Artaud, mais tarde, comentou que louco foi van Gogh por não ter cortado as duas orelhas. Um ato simbólico que exorciza a tragédia em seu próprio cor­po. De fato ele sofria de distúrbios emocionais, uma psicopatia que faz parte da vida de tantas pessoas. Van Gogh, no entanto, era artista e este é um perturbador da ordem estabelecida, so­bremaneira no mundo nórdico. Quem poderia reduzir essa con­dição a um diagnóstico que antes de tudo manda amordaçar os inquietos, os revolucionários, os que são capazes de expressar no quarto mínimo a simplicidade e, ao mesmo tempo, a com­plexidade da vida – um canto de redenção, colocando no lugar violeta de nosso cérebro a saúde da sociedade, a janela que jamais poderá ser fechada?

A figura da janela responde e corresponde aos embates de van Gogh com as paixões e a perspectiva. Nada mais contradi­tório entre si. Mas van Gogh precisava e queria situar no espa­ço o objeto de seu olhar sem deixar de situar também o sentido de suas convulsões íntimas nas coisas mais cotidianas. Pode-se supor que a expansão luminosa do quarto, com o signo da jane­la cujo batente não pode encaixá-la, foi uma vingança do pin­tor por ter ficado doente e sem poder pintar durante quinze dias. Numa carta de outubro de 1888 ao seu irmão e protetor, Theo, van Gogh escreveu: “Enfim envio-lhe um pequeno esbo­ço para ao menos dar-lhe uma idéia da feição que o trabalho está tomando. Pois hoje eu voltei à carga. Ainda estou com os olhos cansados, mas, enfim, eu tinha uma idéia nova na cabeça e aí está o esboço. Sempre tela de 30. Desta vez trata-se sim­plesmente de meu quarto, só que aqui a cor é que tem que fazer a coisa e, emprestando através de sua simplificação um estilo maior às coisas, sugerir o repouso ou o sono em geral. Enfim, a visão do quadro deve descansar a cabeça, ou melhor, a imagi­nação”. [...] “Isto para compensar o descanso forçado a que fui obrigado”.

Talvez a vingança de van Gogh abarque todo o tempo de estudos da perspectiva ordinária, a que fixa um ponto no hori­zonte das certezas aparentes, sem, contudo, poder excluir a empatia que não permite a janela fechar-se, como se não fosse mais a perspectiva, mas o vento de Arles. O vento, sim, poderia enlouquecer van Gogh. Nas mesmas cartas de outubro de 1888 ele refere-se ao vento como o “maldito mistral” ou “o mistral impiedoso que varre com fúria as folhas mortas”. Ameaçado pelo vento e o desgarramento interior, a pintura era a única forma de mantê-lo vivo e lúcido. No entanto, mandaram tirar as tintas e os pincéis de van Gogh no seu internamento após o episódio da orelha cortada. Seu psiquiatra achava que a pintura estava levando-o à loucura! E van Gogh havia escrito: “Posso muito bem na vida e também na pintura privar-me de Deus, mas não posso, sofrendo, privar-me de algo maior que eu, que é a minha vida, a potência de criar”.

O vento e suas metáforas mostraram a van Gogh que o caos é mais a regra do que a exceção. No torvelinho da transi­toriedade é que sua alma soube dar o golpe da pincelada como

o raio que decepa a árvore, mostrando suas fibras. E a janela está aberta para dentro, para a solidão do quarto, e a viagem de van Gogh é para fora. A imagem evoca a peregrinação poética de Bashô à procura de luas, sóis e lugares sagrados da Idade Média japonesa. O Bashô de van Gogh foi Pai Tanguy, amante da arte oriental e dos impressionistas. Impressionismo e cultu­ra oriental imantaram-se com a abertura do comércio entre o Japão e a Europa, em 1854. Manet, Monet, Gauguin e van Gogh são os primeiros artistas a assimilar os princípios chineses, ten­do como filtro o Japão, que durante a dinastia Liang foram enun­ciados pelo pintor e escritor Hsieh Ho no famoso e influente Seis Cânones da Pintura:

1. Captar o movimento da vida
2. Expressar a estrutura linear
3. Procurar o parecido
4. Utilizar a cor segundo o tipo de objeto representado
5. Compor em graus e planos
6. Copiar os mestres antigos, perpetuando seus traços

Alguns destes fundamentos fazem parte da concepção ar­tística dos europeus, especificamente nos períodos que com­preendem o impressionismo, o expressionismo e o abstracio­nismo: o aspecto linear que na França ficou conhecido por cloisonnisme, os graus, os planos e o movimento. Hsieh Ho assinalou que a mais alta aspiração do pintor devia ser expres­sar o chi-yun, a vida e o movimento da vida. É precisamente o que van Gogh fez. Expressar sua vida ao captar o movimento da vida que permanece no vazio. As suas turbulências, então, além de expressar o ser, expressam o devir. O vazio é um lugar imaginário que somente o ponto pode localizar. O ponto é aquele que é mínimo de corpo, centro de energia, agente de um traça­do linear. O conceito deste agente foi o transparecer na janela de van Gogh. O ponto de fuga está no centro da janela, foi localizado ali quando nada havia e de onde surgiu, se expan­diu, fazendo o quarto em profundidade habitado pelo silêncio do pintor nos objetos de sua afetividade. Por trás dos objetos é a introvisão que fulgura e une o cotidiano com a arte. A janela que não fecha é passagem do significado ao significante. O que falta à janela, sua funcionalidade, foi substituído por outra coi­sa. O erro perspectivo adquiriu uma dimensão poética que não separa a aspiração do ser do vir-a-ser.

Assim concluo que a pintura de van Gogh é o sujeito do olhar que ao penetrar a gênese das coisas parece dizer: tudo no mundo é cifra. Ele mesmo decifrou o enigma quando se depa­rou com os corvos nos trigais.