Pintor sem tréguas

Iberê Camargo, em vida, foi considerado o pintor mais importante do país. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, perguntaram a ele se a consagração não o incomo­dava. A resposta foi “não”, acrescentado: “assim como um me aplaude, o outro atira pedra. Tantas vezes fui negado, excluído. Amanhã acontecerá outra vez. É da vida. São os 15 minutos de fama de que falava o Andy Warhol. Se hoje se discute se o suporte vai acabar, então eu serei um dinossauro, o último dos pintores”.

Apreciado ou não, a posteridade de sua obra está assegu­rada, como também as declarações, incisivas como as suas imagens que intercambiam o sentido da pintura em função da vida. E como não se deve exilar o que o artista é dos significa­dos que expressa, os imperativos da arte foram determinando a sua forma de ser na forma da pintura. Iberê Camargo, assim, escreveu o seu moto perpétuo: “Penso em Sísifo, obrigado a rolar uma pedra sem pausa e sem repouso. A ele assemelha-se

o pintor, que dia e noite é obrigado a pintar, sem trégua, duran­te a vida toda, sem esmorecer. Mas o que seria de Sísifo se não fosse mais obrigado pelos infernos a rolar a sua pedra, e do pintor que não sentisse mais a compulsão de pintar, de pintar sem tréguas? Seriam ambos criaturas sem destino, dentro deles cavar-se-ia um imenso vazio. Bendigo, pois, o destino de um e de outro”. A pintura, para ele, foi fatalidade, da qual não pôde e nem quis escapar com a aspiração de “dar permanência ao transitório”.

Iberê Camargo nasceu em Restinga Seca, Rio Grande do Sul, em 1914, “um lugar perdido num grande espaço”, onde viveu os primeiros quatro anos. O breve tempo na desolação da campanha constituiu a matriz poética para as futuras obras, “soterradas na memória”, segundo suas palavras. O retorno à infância é uma das fontes do moderno, assim como as viagens ao desconhecido. Achando-se “andarilho”, Iberê Camargo jo­vem foi para o Rio de Janeiro estudar com Guignard, e, na Eu­ropa, conheceu André Lhote e Giorgio De Chirico. As relações do jovem pintor com estes mestres foram puramente intelectu­ais, pois suas confluências espirituais foram Portinari, Segall, Roualt, Utrillo, Braque, Picasso e, numa perspectiva mais am­pla, todos os artistas que “pintaram verdadeiramente com a alma”, marcado que estava pelos impulsos do expressionismo jamais abandonado por ele e que o projetou para o abstracio­nismo.

Toda arte, naturalmente, é expressão. O expressionismo, porém, é uma supercorrente que transvaloriza a expressividade através da empatia, que é a transferência de sentimentos prove­nientes da atividade psicofisiológica do artista. Não é de se estranhar que Iberê Camargo tenha dito com freqüência que arte é emoção, mas sem deixá-la à deriva, submetendo-a à or­dem perceptiva, em cuja base está o processo de abstração que separa uma ou mais partes de um todo, considerando-as isola­damente como signos operatórios da totalidade. E quanto mais angustiante é o envolvimento do sujeito com o todo, mais ele se aproxima do abstrair.

O expressionismo é um estado de revolta interior em per­manente contato com a transcendência, que por razões intrín­secas atinge uma atmosfera de quietude. É natural que este pro­cesso ordenador aconteça no âmbito das artes plásticas. No caso de Iberê Camargo tudo iniciava com o seu “destruo mais do que faço”. Mesmo no circunstancial, o pintor precisava des­truir. Iberê Camargo avançava sobre os próprios destroços. A sua pintura se desfaz a todo o instante para ser pintura que oculta por onde o pintor avançou e recuou, sendo, nestes termos, me­táfora visualizada de outra temporalidade, agora momento cris­talizado e acolhedor de vestígios com os quais o pintor procu­rou aderência material e estética: “Procuro a mim mesmo den­tro da matéria”.

Quando investigava o que falta às coisas, Iberê Camargo encontrava o que as coisas são. Antes do ser, o conhecer. Privi­legiar esta matéria expressiva é acreditar que tudo emerge do ato pictórico em corporificação de dentro para fora; pintura em estado nascente que dá tangibilidade à visão, pensada por Iberê Camargo como “sentido do tocar”. Ao espectador ativo cabe o mesmo, tocar com as retinas para deixar que a substância da pintura o contagie através de vermelhos, violetas, amarelos e pretos com a mais pura coagulação ametista, gama recorrente de Iberê Camargo.

Se o olhar é provisório no campo do visível, as imagens captadas pelo olho giram no mental e no tonal até encontrar cognição no objeto da visão. Iberê Camargo, para tanto, pintou motivos mínimos – o carretel, a cruz, o dado, a seta, o homem

– com a máxima transfiguração de suas imagens e para usurpar

o vazio ou o abismo da tela. Sabe-se que Iberê Camargo ataca­va impetuosamente a tela, uma arena para o corpo das coisas que insinua o corpo do pintor. O que importava a ele era o ato, a ação. Desta maneira, a pintura sacrificava os dados represen­tativos em favor de quase uma escrita dos embates entre o pin­tor e o suporte. É por isso que Iberê Camargo disse que van Gogh “reescreveu o mundo” com apelos emocionais. Para am­bos os pintores a teleologia de gestos pictóricos que descarnaram as coisas para melhor voltar às mesmas com tons épicos e trá­gicos.

Com as pinturas intituladas de “Espelho negro”, e com outras como “O homem com a flor na boca”, o mito de Sísifo, com a obsessão em torno da verdade temporal, confunde-se com outro mito, o de Dionísio, que ao confiar o seu rosto na superfície especular viu refletido o mundo. No “Espelho ne­gro” é o imaginário, o mesmo sendo outro, diferença e distân­cia de si para a identidade do reflexo das coisas. Há similitude entre as coisas, jamais duas coisas iguais. Porém, pode-se ver o mesmo por meio de formas diferentes. Mais objetivamente, reflexo do mundo é “O homem com a flor na boca”, peça de Pirandello revisitada por Manoel Aranha e reinterpretada por Iberê Camargo com expressão total de toda uma época no dra­ma de duas pessoas. Uma delas, condenada à morte, brinda a vida com a flor na boca; o outro, livre de qualquer ameaça, lamenta e sofre. Ironia que o pintor sem tréguas referenciou com toda maturidade artística.