Blake e um homem chamado Ninguém

Tendo como cenário o Velho Oeste, Jim Jarmusch dignifica o cinema contemporâneo com mais uma obra-prima, Dead Man. Entre outras coisas, principalmente a trilha sonora e o preto-e-branco, o filme surpreende pelo insólito encontro entre um índio chamado Ninguém, (Gary Farmer), e William Blake, (Johnny Depp), homônimo do poeta visionário inglês, o autor de Provérbios do Inferno. Sem cair na fantasia pela fantasia, o filme é francamente imaginário desde a seqüência inicial, que é uma verdadeira lição de cinema. Imaginário ao contrapor tempos e culturas díspares por meio de uma sensibilidade apurada ao refletir com solidez os mistérios entre a vida e a morte. Neste sentido, em sua continuidade o argumento não deixa de costurar o que é aparentemente descontínuo, os atos de viver e de morrer.

Antes das cenas de Dead Man uma citação de Henri Michaux sacode o esqueleto do espectador: "É preferível não viajar com um homem morto". Bem vivo ainda, o personagem também se inquieta com a sucessão da paisagem à janela do trem, que vai do bucólico ao dramático e, sobretudo, quando um estranho passageiro, como se fosse um oráculo, começa a sugerir que a sua vida, ou seja, a sua morte, é iminente.

William Blake praticamente não tem passado ou não viveu ainda, ou foi preciso que esquecesse algumas coisas para poder ter um barco, o barco que terá pelas mãos e pelo credo indígena de Ninguém, conduzindo-o ao ritual da morte, a lugar de onde veio na confluência do rio e do mar. Com estas imagens iniciais e finais, William Blake é acossado pelo desconcertante e pela inevitabilidade. Alguns críticos de cinema viram nesta figura do fim voltando ao começo uma evocação a Andrei Tarkovski.

Depois de chegar aos confins do Oeste, e tendo gasto todo o dinheiro com a passagem, William Blake é expulso da firma pela qual acreditava, através de uma carta, ter obtido o emprego de contador. É assim que tudo se precipita. Ao vagar pela cidade obscura encontra uma ex-prostituta, agora fazedora de flores de papel. Em seu quarto desenrola-se uma das cenas mais belas do filme com o idílio entre ambos, porém interferido pelo duplo assassinato, dela por seu amante pistoleiro e deste por William Blake. Vendo-se em situação proscrita, ele foge da cidade e é encontrado por Ninguém, que procura curá-lo do ferimento no peito provocado pela bala que atravessou o corpo da fazedora de flores. O pele-vermelha Ninguém logo percebe que nada pode fazer, reconhecendo-o como o próprio poeta inglês William Blake com um de seus versos que lhe vem à mente: "Há os que nascem para a alegria e há os que nascem para a noite fria".

A partir deste m omento, Ninguém se transforma em guia espiritual de William Blake. Como se fosse um Virgílio primitivo, o conduz pelos meandros da vida sendo arrastada para a morte. Com energias naturais e ancestrais, exerce proteção sobre ele, reconduzindo-o ao plano espiritual perdido. Diante da perseguição e da perfídia dos homens brancos, Ninguém exclama versos do poeta William Blake: "Nunca a águia perdeu tanto tempo quando quis aprender com o corvo", e, com o personagem homônimo em suas forças exauridas: "Levanta-te, passe o arado sobre os cadáveres".

Nas entrevistas concedidas por Jim Jarmusch, que levou seis meses para terminar o roteiro, ele nunca deu uma explicação satisfatória por ter incluído William Blake no argumento. E nem precisava. O conteúdo imaginário do filme, que não deixa de lembrar o poeta inglês ao afirmar "tudo o que outrora foi imaginação, hoje é realidade", permite inclusões deste tipo. A inda mais quando, ao pesquisar a história dos nativos norte-americanos, ficou com a impressão de que os provérbios de William Blake faziam parte da vida anímica dos indígenas. Essa associação inusitada, incluindo o papel do pele-vermelha pensador protagonizado por Gary Farmer (ele mesmo nativo ativista), mais a trilha sonora composta por Neil Yong, fazem de Dead Man um filme antológico.

A trilha, por si mesma, é uma obra-prima, porém indissociável do filme. Integrada na narração, é como se Neil Young tivesse extraído as progressões sonoras das imagens, dos ruídos e também dos silêncios que perpassam o filme. Comenta o crítico de cinema Mauro Dias que a linha melódica, em tom menor e em variações e distorções, "surge diretamente da cena, do gesto, do passo, do olhar". O estratagema para convencer Neil Young a compor a música foi obra do montador, Jay Rabinowitz, que "editou e enviou cenas do filme com as músicas de Young na trilha sonora". São palavras de Jim Jarmusch, que considerou um desafio para Neil Young ao aceitar a empreitada com uma condição: a composição deveria ser realizada diante das cenas de Dead Man.