O ano de 1929 foi decisivo para que uma das obras-primas do cinema silencioso fosse realizada. Mário Peixoto, o autor da façanha, após desentendimento grave com o pai deixou o Hotel Bayard, em Paris, indo ao encontro de parentes que chegavam na Gare du Nord. Dominado por emoções opressivas provocadas pelo conflito familiar, ao passar pelo Boulevard Montmartre viu a imagem que nele despertou reações profundas, incontidas. Mário Peixoto, em relato posterior disse que tomado de choque parou diante da imagem e teve a visão de “um mar de fogo, um pedaço de tábua e uma mulher agarrada”. A imagem que produziu a visão fantástica e dramática foi o rosto de uma mulher envolta pelos braços algemados de um homem, foto estampada na capa da revista Vu, de 14 de agosto de 1929. O que seria o filme, apresentou-se naquele instante sem aparente explicação, de extrema tensão, como se alguma coisa tivesse reboado dentro dele.
Depois de encontrar os parentes, levando-os ao hotel, Mário Peixoto comprou a revista e na noite daquele dia escreveu “um esboço aproveitado assim de uma espécie de ‘visão’, de inspiração, [...] uma coisa não provocada que aconteceu”. Nos momentos da visão ele sentiu uma “extrema limitação” e, assim, com a cena inicial do filme (o rosto da mulher e os punhos algemados) e a cena final (o mar e a mulher agarrada no pedaço de tábua), pensou no título: “Foi instantâneo. Limite, o título [...] só podia ser Limite”.
Mário Peixoto ao retornar para o Brasil, no final de outubro de 1929, procurou os amigos desde os tempos de Barro Humano, época em que começou a bater nele a idéia de fazer um filme. A decisão foi a partir do esboço de Paris, que com a sugestão de Brutus Pedreira poderia ser passado a limpo, que é o “scenario” escrito por Mário Peixoto para ver se dava pé. O termo “scenario”, que vem de “scène”, é a história em cena, contada em cenas, na época do cinema silencioso o roteiro com a conseqüente decupagem da história uma vez o filme rodado. Como Limite não conta nenhuma história, a decupagem ou o corte está definido nas próprias seqüências escritas no “scenario”, segundo Saulo Pereira de Mello “uma lista de versos visuais”. O “scenario” foi levado a Adhemar Gonzaga, recusando-o com o argumento “que um trabalho naquele gênero só arriscando a própria direção do autor”. O mesmo ocorreu com Humberto Mauro. De qualquer maneira ambos os cineastas “indicaram Edgar Brazil para fotografar o filme”, ficando a direção com o próprio Mário Peixoto.
É com Edgar Brazil que “Limite chega à versificação de sua visualidade cinematográfica. Sendo desenhista meticuloso, percebeu que o “scenario” do filme tinha a narração do ritmo das coisas, no caso o fluxo de imagens injetadas na mente de Mário Peixoto no encontro súbito com a foto na capa da revista. O filme foi realizado sob esta ótica poemática, a proto-idéia de um poema. Saulo Pereira de Mello diz que o filme foi escrito como cine-poema, e como os poemas visionários não teve praticamente correções, somente adquirindo melhor viabilidade técnica quando estava prestes a ser filmado. “O importante fica claramente visível – como um poema: o primeiro jato. O fato básico, na invenção de Limite, é que a concretização em forma, a partir da “inspiração” e do surgimento incoercível do poético, foi feita, sempre, em termos de imagens, na forma de “scenario” primeiro, na de filme, depois”.
Os fatos que tornaram possível a produção de Limite podem ser resumidos com os dados fornecidos por Saulo Pereira de Mello, começando, então, com a foto da capa da revista Vu, imagem propulsora de outras imagens com o conflito de Mário Peixoto com o pai. Da visão foi escrito o esboço em Paris, que foi melhorado no Brasil ao ser confiado a Brutus Pedreira, chamado de “scenario” e que, ainda, ganhou “melhor forma”, talvez datilografada e que serviu, com minúcias técnicas, para a filmagem. Nas principais versões do esboço de Paris, Saulo Pereira de Mello reafirma que não houve mudanças fundamentais, conservando a “intuição poética” e a “intenção poética” que nos levam ao núcleo inventivo do filme.
O primeiro passo que se possa dar neste sentido é em direção do inconsciente, cujo fluxo jorrou como estado poético e como poema foi filmado. A obra final, a intuição transformada em intenção, é quase uma exorcização de fantasmas que povoavam o imaginário de Mário Peixoto, naturalmente forjados e calados no inconsciente até então, até quando “uma coisa meio secreta”, o conflito com o pai, associou-se à imagem da mulher e os punhos algemados. O mistério de Limite continua neste encontro sem premeditação, choque semelhante a tantos outros motivadores de obras máximas como, entre outras, A passante de Baudelaire, Corvos no trigal de van Gogh, O grito de Munch e Metropolis de Fritz Lang.
A coisa secreta no embate com o pai, que é a chave do romance escrito por Mário Peixoto (O inútil de cada um), é sem dúvida uma das chaves para se estar mais próximo da gênese de Limite. Mas este é outro capítulo que colide, inevitavelmente, com as fontes expressionistas da arte.