Assim como Mário Peixoto, o único filme realizado por ele tornou-se lenda. Trata-se de Limite, encenado no final dos anos 1920, época do cinema mudo e de concepções auridas de especificidades culturais, porém com abrangências universais. É por isso que se pode colocar Limite lado a lado de produções magistrais, naturalmente em preto-e-branco como, entre outros, Metropolis de Fritz Lang. O filme, além de ter sido projetado em uma sessão tumultuada no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro de 1931, foi levado a Paris, onde foi apreciado ou compreendido por Orson Welles, Eisenstein e Pudovkine. É que Limite, filme excepcional, foi taxado de arte pura, inacessível ao grande público. Ao se referir ao filme Octávio de Faria diz que para entendê-lo é “preciso mesmo um certo hábito de ver cinema como arte - o cinema autêntico, hoje infelizmente perdido, ou a começo de se perder com o vozerio e o catastrofismo do moderno cinema falado”. De fato o filme não é de fácil recepção, pois depende da sensibilidade ativa e da inteligência do espectador. Mas isso é outro problema. E parece que a questão foi agravada por Glauber Rocha ao afirmar que se o cinema brasileiro tivesse seguido Mário Peixoto, teria entrado em um beco sem saída. A crítica de Glauber, naturalmente, visava a falta de referência da cor local ou de temáticas nacionais em Limite. O cinema brasileiro não seguiu a estética de Mário Peixoto, e, no entanto e na maioria dos casos, se perdeu completamente.
Em linguagem comum Mário Peixoto foi e é visto como uma pessoa esquisita. Na realidade estamos diante de um artista complexo, incomum e de difícil acesso. Autoexilado em sua “ilha”, aliás Ilha Grande, escreveu outro roteiro que não chegou a filmar, A alma segundo Salustre. Entre as duas obras há correspondências, tendo o mar como elemento e mediação para os seres circundados por limites e abismos. E Mário Peixoto foi mais longe ao pensar que cada vivente no âmbito de sua atividade mental, consciente ou não, está em uma ilha ou em um barco ameaçado por forças naturais e metafísicas. Disse ele que cada pessoa tem em si a narrativa de uma barroca ilha no oceano.
Apesar das fontes em torno de Mário Peixoto serem mínimas, sabe-se que o motivo imaginário para a realização de Limite, que vinha dando voltas em sua cabeça, aconteceu em Paris quando se deparou com a capa de uma revista com o rosto de uma mulher com o pescoço envolvido pelos punhos algemados de um homem, imagem que inicia o filme, poderosa e que emerge de um píncaro com abutres e se funde com o mar brilhante, onde aparece um barco perdido com três tripulantes. O barco é a própria limitação no infinito do mar.
O eixo principal de Limite é o barco extraviado, cujo ritmo rege os demais por meio de relações de imagens que narram a situação existencial dos personagens. O enredo, nesse caso, estaria em segundo plano ou submetido e exposto pelo ritmo das coisas. É essa a originalidade do filme conforme Octávio de Faria. Menciona ele que Mário Peixoto não esqueceu a fundamental lição do cinema que se encontra nas palavras de Léon Moussinac: “Monter un film ne’st pas autre chose que rythmer un film”. Se montar um filme é revelar o seu ritmo, em “Limite” o ritmo intrínseco é proveniente do isolamento do barco e de seus tripulantes limitados pela infinitude da natureza. Nesse sentido Octávio de Faria conclui que Limite é um filme de natureza, de tema ou de estado de espírito em relação à natureza. E a natureza aparece suprimida, quase abstrata, além do lugar-comum. Mário Peixoto rigorosamente abstraiu aquilo que é convencional em favor do natural em seu momento originário, significativo, pois a natureza não é estética o tempo todo. A percepção da singularidade estética das coisas faz de Limite uma realização isolada. Octávio de Faria: “Foi a capacidade de captar esse momento, de sentir a combinação que, entre outras, exprime da melhor forma tudo o que ela contém de valor estético aproveitável, que distingue Limite de tudo quanto se tentou no cinema nacional”.
Outra qualidade estética de Limite está em cada take, cujas formas se fundem com as demais. São analogias que Mário Peixoto foi compondo entre os objetos de sua atenção absolutamente evocativa e pictural. É o limite de uma imagem que pertence ao limite de outra imagem através de fusões que se observa, para quem não teve a oportunidade de assistir o filme, nos fotogramas restaurados por Saulo Pereira de Mello, com os quais fez um “mapa” de orientação visual. (Veja-se Limite – filme de Mário Peixoto). As analogias caracterizam-se pelo retardar o aparecer da imagem no aparecer de outra imagem, para o aparecimento do sentido poético contido nas coisas. Assim apreende-se que o sentido de alguma coisa depende, na interdependência dos signos, do sentido de outra coisa. Paradoxalmente, o sentido de Limite, em grande parte, passa pela impossibilidade do sentido. Nas cenas finais, quando retornam o rosto da mulher e os punhos algemados, o fluxo e o refluxo das ondas, com duração de aproximadamente dez minutos, sugere a evasão ou o transcender o paradoxo, que não deixa de ser uma das obsessões do pensamento ocidental.