Corpo depois dos ossos


O poeta é assombrado por uma voz,
uma voz com a qual suas
palavras devem se armonizar.

Malraux




1

nuvens apagam
o espelho

moventes sombras
no meio do olho


2

o mar
sempre o mar
e o rumor
do nome
que será dito


3

depois do osso
da palavra
fagulha o pó

pergunto ao pó


4

ao rever o velho pai
(depois dos campos da aflição)
mendigo com sinais
o que está no nome

é a origem da linguagem


5

Li Tai Po
embriaga palavras

solecismos orientes


6

dos acasos da palavra
resvala o poema

iniciação
ao que não se conhece


7

ao pensar
no corpo depois dos ossos
as coisas
pedem outros nomes

à nuvem
pedra angular
ao semblante
constelação


8

sim
o devir
a sombra mais curta

e nem sei balbuciar
o abismo de Nietzsche


9

o sentido
se há
está entre as coisas

entre o pássaro
e o vôo do pássaro

na onda
ao solver a onda

no movimento
rápido dos olhos


10

o sentido
está nas cinzas


11

admirável Bashô

diante do relâmpago
não disse:
a vida foge


12

Leminski
o homemcentauro
ouvia o vento
a chuva
o silêncio do sul
o signo do signo

ouvia contra o olvido


13

para entrar
no arcano
Pound
dois ratos
e uma mariposa?

não esqueça
a rã
e o raio


14

ingressando na maturidade
o poeta aprendia
o que não devia dizer


15

depois
de poema assim
jogar no lago
abrir um claro
no claro


16

morrer
abolir a morte


17

na maré do copo
por um momento
perfil de efígie
sobrancelhas de cálice
e me calo


18

no mármore do dia
penso nos precursores

por desvio e liame


19

o que sei
é para o que não sei

assim compreendo
Cioran: o nada
é um bálsamo existencial


20

a escola (schola)
ataúde

liber pulle
facies


21

poemas são ossos
poetas perdas


22

com Barthes devo esquecer
meu corpo histórico

devo ser a ilusão
de contemporaneidade
dos corpos presentes


23

o raio
Mandelstan
no olho
para reencenar
Petersburgo
e dizer
como dizias
a palavra abençoada
sem sentido


24

cada um
Trakl
leva o cristal do poema
que não começou ainda


25

nenhum poema
chega ao teu Oriente
Anna Akhmatova

nenhuma palavra
sussurra no lábio
risco do olho
nas noites brancas

branca pele
orvalho no estuário
do Neva
correndo para o Báltico
tártara
atravessas Petersburgo
com o lixo da cidade

nenhum poema
Anna Akhmatova


26

viver no interior
das palavras

por delírio e evocação
dizer no silêncio

na solidão da palavra
a si mesma


27

ao ver
meu livro
o recém-chegado
Renatus
poeta de ágatas
escreveu: o livro
dos desatamentos


28

agora
o que está
no corpo
nos ossos
desatados
desatinos


29

o poema
pensa o poeta

disjecta membra
palavra crepuscular


o precursor e o discípulo


a busca

quem
se eu gritasse
nem mesmo ele ouviria
o precursor
e o discípulo no abismo
da história familiar
usurpando a face que ainda não é
pois nele só iniciou o furtivo
e a voz que se perde no desvio
mar que me traga
para devolver o que está em mim

a queda

quem me ouviria
caindo
com a pele alheia
musgo e pedra
nuvem que anuncia
a queda do não nascido
sem nome no fundo invisível
olhando os destroços
o vento movendo o des-tempo
as asas do anjo caído

o giro

na água do espelho estou
e o silêncio sinistro me furta
enquanto furto o isolado pela noite

a máscara

nasci tarde demais
e o Satan nascido antes
me espreita
para que eu veja o numinoso
o mascarado que se recusa morrer

a purgação

com esta cara
com esta mácula
fiz do precursor
minha sombra ascética
que dormia

a luta

os mortos retornam
e a morte oferece dádivas
ao que ousou
lutar outra vez com fantasmas
com os dias infaustos
com o pensar confinado
no limiar do sopro
de onde surgiu o discípulo
e se expandiu
em profundidade habitada