A literatura brasileira, a partir do momento em que Ricardo Hoffmann deixou a advocacia, ganhou um de seus autores mais capazes de fazer da palavra uma reflexão ao mesmo tempo existencial e artística. Seus livros, portanto, não se adaptam a tão falada e canhestra indústria cultural. Aliás, inadaptado, ao começar a escrever estava imbuído de “exasperação intelectual” que o levou a dois títulos incomuns: A superfície e A crônica do medo. São obras de extrema inventividade, que causam comoção, complementando-se sob a ótica do que o autor declarou em “A orla da floresta”: “Não sou mais um cronista do absurdo do racionalismo decadente europeu, sou o poeta de volta à força do irracional”. Retorno substancial em termos de linguagem que se recusa a dizer o que é imposto e colocado, no âmbito da elaboração ficcional, como crítica da passividade cultural, cujo impulso literário é a formação da pessoa em conflito com a história familiar. Este é o pano de fundo e o que nele se agita em A superfície.
A superfície, sem perder a intensidade narrativa em nenhum trecho, tem como motivo fundamental a “inquietação étnica” protagonizada por um adolescente, Heinz, inadaptado à vida familiar e, em conseqüência, à sociedade. Artista por vocação teleológica, recebe aulas de conhecimentos gerais de outro adolescente, Humberto, o narrador, que por aguda percepção não vê distância entre o pensar e o agir. A narrativa, desta maneira, é enriquecida por leituras psicológicas que deixam expostas as incertezas e as certezas humanas. Se as circunstâncias afetam as personagens, como de fato afetam e mudam suas vidas, tais mudanças resultam em outras ações, recíprocas, das consciências agindo sobre as circunstâncias. Operação do texto, que não deixa de ser dialética, fazendo coincidir os imperativos da vida com os da linguagem.
Três partes compõem o livro: “A inclinação”, “O desenvolvimento mórbido” e “No terceiro dia”.
Humberto, Beto, logo constata que seu aluno padece de insuficiência social, que é desorientado. Com seu “instinto pedagógico” começa a agir sobre ele. Não seria Beto o caminho, pois, desde o início do livro, Heinz parece ser a sua projeção? O narrador, entre outras coisas, apropria-se das realidades que experimentou e renova o que conheceu e está conhecendo no próprio ato da narração. Beto, familiarizado com a interpretabilidade psíquica, relata a aparição de Heinz, orientando-o no plano mental e no aparato social. E ele sabe, mesmo consi-derando-se também um “medroso social”, que apenas uma palavra pode lançar o homem contra as circunstâncias e aparências: pode levar “um indivíduo a soçobrar ou salvar-se nos mares do convívio”. Algo imprevisível, um desvio, é o que decide a vida. A formação de Heinz, conclui Beto, é para que “resista” – para que tenha o direito de agir por si mesmo.
O direito do indivíduo encaminhar-se na vida orientado pelo próprio pensamento.
O conflito de Heinz é com o pai, Holtz, típico representante do poder doméstico que se manifesta sobretudo por omissão ou, simplesmente, por silencioso endurecimento da senti-mentalidade, cujas conseqüências dizem respeito à usura do pensamento. Por trás desta personalidade opressiva há uma certa complexidade: “um domínio ora dissimulado ora ostensivo”.
Para Holtz, o filho é perigoso porque quer se tornar artista.
O perigo está em que os adolescentes sonham viver dessas coisas, porque aí têm o clima de ociosidade e liberdade de enquanto são filhos de família e vivem às custas do pai.
O psiquismo de Heinz, ou seja, a sua capacidade artística potencializada, avoluma-se à medida que o conflito familiar revela uma contradição entre o que ele é e o que deseja ser. Mas, nem família e sociedade estão preparadas para conviver com os desejos uma vez transformados em expressão. Ao querer sair de seu isolamento, o cerco familiar torna-se evidente em torno de Heinz, como já é com relação aos demais: mãe, irmã e irmão. Mas ele, depois de servir o exército e freqüentar a escola de belas-artes, abandona a família e retorna a outro isolamento, este de reação à impotência que a sociedade preserva. A partir de então, sua realização tem como meio a arte, da qual vai construindo um discurso claro, vidente, porém atormentado. Para Beto isso já estava nele, “apenas veio lentamente à superfície” sob a forma pictórica e verbal de um embate consigo mesmo, como se pensamento e arte fossem um campo de expressão psicofisiológica. Ou melhor: de empatia e de abstração.
Uma tela é uma superfície de impressão pura. Tem como fonte a vida. Qual é o limite das nossas impressões? O campo visual? E as outras impressões, até as psíquicas? A nossa natureza é um feixe tão compacto, seus componentes devem estar interligados tão estreitamente, que a comunicação de um campo de impressões com outro tem que ser uma lei natural, é infalível. Alguém pintará um dia o amor, a cólera, a veneração, o ódio, o medo, sem representatismo.
A constatação de Heinz diz que a pintura não deve reproduzir mais os objetos conhecidos ou imaginados. Para ele a tela é uma arena, na qual a existência está em osmose com a essência da arte. Expressionismo abstrato que leva o sujeito ao encontro de territórios obsconsos e verdadeiros da mente. Artistas com esta natureza conceptiva estavam cientes que tinham missões utópicas, naturalmente abalados pela civilização em catástrofe como foi o caso do período das duas guerras mundiais. O modernismo praticado por eles trabalhou nos interstícios da modernização para liberar energias espirituais.
Heinz, em função deste atavismo ou inevitabilidade étnica, efetua um “exorcismo plástico”. Ele está na direção de uma arte futura, mas é no fundo invisível do tempo vivido que está a força que deve abjurar o que impediu seu desenvolvimento, assim condicionando o desgarramento mental e mudando sua sensibilidade. E a arte vai exigindo dele a vida que tem. A tela, pensa ele, é uma superfície como a vida. Ao querer escapar do fluxo das aparências, Heinz descobre que a pintura é uma transcendência, apesar de ainda sentir medo do inominável, “que nos projeta para junto de nossa origem: o nada”. Na expansão sensorial e intelectual de Heinz, fantasmática pelo confronto entre formação e dissolução, encontra-se o principal pathos dos artistas do mundo nórdico. Klee e Kandinsky, entre outros, são exemplares. Ambos cultuaram uma esfera superior para nela desfrutar uma quietude emocional. Klee: “Precisava escapar do mundo, queria chegar a um mundo em que fosse possível a afirmação, tive que voar, abstração”. Kandinsky: “Mais acima, já não existe medo”. A teoria, com inflexões filosóficas neste sentido, não estava dissociada da prática. Além dos pintores, historiadores como Wilhelm Worringer estavam formulando o transcendentalismo da expressão. Worringer, em traços gerais, chegou à conclusão de que se deveria abstrair as coisas da arbitrariedade e da causalidade para solucionar o problema histórico da ansiedade.
Por outro lado, na passagem do expressionismo para o abstracionismo, as descobertas da pintura aproximaram-se de outras áreas do conhecimento, começando com a experiência mística no que possa ter de epifania para superar as angústias provocadas pela vida moderna e pelo dinamismo histórico. Os avanços da ciência também contribuíram para os desenvolvimentos da pintura abstrata: a física nuclear, que separou as unidades básicas da matéria de seu aspecto de superfície, fazendo aparecer um novo conceito de realidade até então regido pelas leis da física clássica; e, nos domínios da psique, o surgimento de outros mundos paralelos, em uma camada mais profunda, no inconsciente.
Heinz, como também Beto, são incorporadores desta cultura em choque subliminar com o novo mundo.
Enquanto Heinz elabora as suas expectativas – ele diz que é o horror – diariamente vai ao rio, onde conheceu a aderência afetiva e social com outros jovens.
Ele parecia ter feito amizade com o rio, uma amizade sombria.
O mistério de Heinz agrava-se com o repentino desaparecimento constatado depois de três dias. Deixou o ateliê aberto e nada levou. Como havia se habituado com o rio, levantou-se a hipótese de ter deixado de respirar em sua corrente. Empre-endeu-se a busca, mas o pai concluiu que era inútil, “uma suspeita errada”.
O sapateiro, vizinho de Heinz, no diálogo à beira do rio, não demora a dizer que pessoas em seu estado doentio às vezes fogem sem explicações. O pai procura justificar-se e reafirma que o filho não poderia estar no rio. O chefe da estação, que comanda a busca, por seu lado acha que com isso Holtz estava querendo se iludir.
O senhor desejaria talvez que ele ainda estivesse fugindo do senhor, como vinha acontecendo.
Nesta passagem confirma-se o que presumi anteriormente: Beto é a consciência de Heinz e, agora, dos demais. O que estava sendo pronunciado era “como se a minha própria consciência desse vozes àquelas personagens”. E o chefe da estação dinamiza a conversa, conhecedor de idas e vindas: é tarde demais para trazer Heinz de volta, tudo acabou. O pai, mesmo assim, argumenta que foi abandonado pelo filho, que foi ele quem deixou a casa por vontade própria. Todos, finalmente, querem uma “revelação” de Beto. Sem querer trair demais o que sabe, diz que o ocorrido é a forma definitiva de algo que vinha se manifestando há muito tempo.
Agora, é só convencer-se de que ele se desligou definitivamente. Não interessa saber para que lado tenha ido. Se fugiu terá sido a mesma coisa que ter morrido, porque nem mesmo a aura de afetividade do ambiente em que passou toda a vida pôde suportar, pôde continuar suportando. Fugindo, terá praticamente morrido.
As luzes e as trevas da superficie assim permanecem. A culminância de Heinz singularizou a sua pessoa e encerra um paradoxo típico do que foi chamado de romance familiar. Desde Dostoiévski, passando por Kafka e chegando a Faulkner, esta linha da literatura proporcionada pela intelecção, na realidade tornou palpável o irracional.
Heinz, para expressar o sujeito estético vinculado à vida, provou o agonismo nietzscheano.
Depois da publicação de A superfície, em 1967, Ricardo Hoffmann redobrou seus propósitos literários e publicou, em 1971, A crônica do medo. Ele mesmo viu a obra como o “exterior conflituoso com o interior instintivo descrito em A superfície”.
Ambos os livros foram escritos durante o regime militar, caça a todos os que não aceitavam a realidade tal como se apresentava. Realidade brasileira e mais ampla, da América Latina
– verdadeiro quintal de experimentação e aculturação da tortura e do extermínio via imperialismo norte-americano.
A crônica do medo tematiza, com alegoria e sátira, esta época de desmandos tenebrosos. Tanto é que a narrativa é prefaciada por “A orla da floresta”, libelo contra a subserviência, porém sem o ufanismo de autores que queriam a popularidade de suas opiniões, como Eduardo Galeano.
Nosso cérebro, exaltado num instante de percepção, aguarda indeciso na encruzilhada do ser e não ser de sua cultura e incultura.
É o tom da orla e tudo o que pode ser a sua expropriação histórica. O autor, entre outras coisas e dedicando o prefácio à sua própria consciência, acevera que é preciso ir além do símbolo que a floresta tropical representa, um convite para que se pense sobre o “que outras culturas exigiram de nós”. A orla quer dar o testemunho de nossos gestos, que sabemos não vir de onde deveriam. Entre os gestos, a língua deve ser o código mais abrangente ao instituir a linguagem, que diz o que somos ou deveríamos ser. É a linguagem que abre clareiras para o homem. Mas não sabemos pensar por conta própria e somos, por alienação cultural, obrigados a dizer o que dizemos. Em superfície e em profundidade, há buracos em nossas consciências.
A orla de A crônica do medo é deliberadamente surreal, ou, mais especificamente, metafísica, como foi a segunda etapa do surrealismo a partir do esgotamento, ou da vulgarização, do automatismo psíquico. Uma meditação racional em Giorgio De Chirico e outros pintores que haviam armazenado um vocabulário subjacente, tornando-o visível através do verismo para melhor expressar os mecanismos do sonho, cujas imagens são provocadas pelo o que se sente durante o sono. A arte meta-física, literária e pictórica, na América Latina, foi generalizada como realismo fantástico.
Com A crônica do medo verifica-se que a realidade é fantasmagórica. Ricardo Hoffmann concebeu um espaço de fabulação que se passa em um palacete colonial, um hospital, onde o recém-chegado, Felipe, encontra homens e cachorros.
Todas as ocorrências, repletas de animosidades e rebeliões, gravitam em torno do chefe do hospital, o “doutor”, celebridade que teve como babá uma negra chamada Bina, agora cozinheira com suas enormes panelas de feijão e de arroz. Quando os pratos são servidos com generosidade, temporariamente os ânimos se apaziguam. O alimento, na voz interior de Felipe, constitui “uma dádiva mínima mas segura e meritória, indiscutível até, cuja rejeição seria como que uma aberração desnaturada do espírito de quem tivesse um estômago para encher e um nariz para sentir o quanto o vapor daquela iguaria dava de testemunho de seu alto nível artístico (não só culinário, ou mais do que isso), acentuando a inelutável servidão de tudo o mais ao argumento final de que se tratava de um simples, ponderável e insubstituível prato de arroz com feijão”.
Mais próximos do doutor, que não representa “nada mais do que uma esperança que não se cumpre”, estão seu sobrinho,
o enfermeiro, sua mulher doente e a velha Bina. Outras personagens vão surgindo com ou sem nomes, os cachorros, duas prostitutas, um cavalo e a fila de pacientes que recebem sempre as mesmas prescrições. O doutor, que nada teme, tem grande experiência na arte de curar e de matar...
Seria exaustivo pontuar todas as peripécias da narrativa. Permeada pelo grotesco e pelo absurdo, lembra as imagens alucinógenas do pesadelo. À medida que a fabulação segue o seu curso, o mais surpreendente acontece: os humanos revelam facetas animais e os animais facetas humanas. E não se sabe quem é mais maligno: o doutor, o enfermeiro ou o sobrinho. Felipe, é assim que pediu para ser chamado, tudo testemunha completamente nu. Sua serenidade, não indiferença, contrasta com as monstruosidades em quase todos os episódios desenvolvidos por uma capacidade imagística invejável que se manifesta, inclusive, em detalhes que poderiam ser considerados supérfluos, mas não o são como o do momento em que uma das prostitutas resolve dar para todos, despindo-se repentinamente, deslizando a calcinha ao longo das coxas, em seus pés configurando um par de algemas.
Quando seus seios saltaram livres e eriçados, era como se um grupo de flagelados avistasse de repente nossa senhora entre as pedras de uma caatinga.
Todos desfrutam da “cicatriz onde jaz Babel, a palavra de Deus”. Mas a prostituta somente sentiu prazer com “O Cão”, “Ele” e outros nomes que recebeu desde o aparecimento nas redondezas: “Chapéu” e “Marinheiro Sueco”. E o animal foi adquirindo características humanas, chegando a falar. Com o aliciamento de outros cães e seus feitos, passou a ser reverenciado como uma entidade. Sua fama tornou-se lendária e ultrapassou os limites geográficos do país.
Diversos escritores, através de todo o país e mesmo no estrangeiro, tinham escrito qualquer coisa a seu respeito.
Depois de quase quatro décadas da publicação, A crônica do medo continua atual. O mesmo pode-se dizer de A superfície, mas em outro plano, o da pessoa entre a individualidade e a coletividade. Obras que desafiam o tempo e exprimem uma experiência sensível e intelectual válida para todos.