C. Ronald e a forma do poema

Entre o primeiro livro publicado e o último, As origens, em 1971, e Caro Rimbaud, em 2006, C. Ronald tem mais doze títulos de uma poesia densa e de difícil acesso. As dificuldades de leitura, entretanto, são à primeira vista. Há que se obter tem­po interior para que haja a apreensão poética, neste caso com a mente distendida. Quando isso é atingido, sente-se que os poe­mas é que agiram invisivelmente. Para tanto, é preciso ler e reler o paraíso e o inferno que ele, o poeta, criou. Mais inferno, porque C. Ronald não esconde as deficiências e insuficiências do homem.

Ler C. Ronald é sentir estimulado o espírito de aventura pelos meandros do pensamento. Seu pensar que é a liberdade da palavra. Essa liberdade, também à primeira vista, parece não ter lógica por implodir as convenções que imobilizam os significados e os significantes. A palavra de C. Ronald, pelo contrário, tem muita lógica, o que não é pouco por se tratar de uma lógica que duvida da própria, pelo menos a considerada como tal, levando a gênese de sua poesia aos desvãos mentais para que a palavra diga o que não está habituada a dizer. Qual o poeta que não desejou expressar o não dito ainda, por outros e por ele? A poesia seria, então, um processo de reações consci­entes ou não entre poetas querendo superar uns aos outros com a superação de si mesmos. A frase é de Harold Bloom: “É pro­priedade do poeta aquilo que nomeia pela primeira vez”.

É o que se constata em todos os livros de C. Ronald: o querer dizer pela primeira vez. Como a sua obra é extensa, em panorama houve uma fissura no discurso poético, tornando-o mais agudo ao legitimar, em fragmentos, as conexões e as desconexões da consciência.

como é pegar o mistério
abrir o sentido da coisa esperada?

Tendo como substrato o tempo, de longa data é o estudo das correlações entre percepção, pensamento e consciência. Na consciência, foi a primeira interrogação feita por filósofos mo­dernos, o tempo seria contínuo ou descontínuo? Hume refletiu sobre momentos distintos, tendo a mente como “um feixe de percepções diferentes que se sucedem com rapidez inconcebí­vel e que estão em fluxo e movimentos perpétuos”. William James, mais tarde, retomou tais momentos que, para ele, pare­ciam contrariar a intuição. Mas James acabou admitindo que a consciência está sujeita a interrupções, enquanto o pensamen­to e a percepção avançam sem rupturas. James, assim, introdu­ziu uma qualidade que definiria a melhor literatura moderna e outras formas de linguagem: o “fluxo de consciência”. De qual­quer maneira, James voltou a se perguntar: “Será que a consci­ência é realmente descontínua [...], ou será que apenas parece contínua diante de si mesma, em razão de uma ilusão análoga à do zootrópio?”

Com o zootrópio comprovou-se que as imagens, no cére­bro, têm movimento. Uma idéia que contribuiu para o surgimento do cinema. O zootrópio é um instrumento em forma de disco, no qual, na parte interna, aparecem desenhos de uma mesma figura. O disco, uma vez girado manualmente, provoca a ilusão de uma imagem em movimento. O mecanismo foi utilizado por filóso­fos e cientistas para estudos sobre a visão e sobre o movimento dos animais. Bergson, com a publicação de Evolução criativa, foi explícito nesta questão no capítulo “O mecanismo cinemato­gráfico do pensamento e a ilusão mecanicista”:

Tiramos instantâneos, por assim dizer, da realidade pas­sageira, e [...] só precisamos enfileirá-los num devir, [...] situ­ado no fundo do aparato do conhecimento, para imitar o que existe de característico nesse próprio devir [...] Praticamente nada fazemos senão colocar em movimento uma espécie de cinematógrafo dentro de nós [...] O mecanismo de nosso co­nhecimento comum é do tipo cinematográfico.

À parte a idéia de que a atividade cerebral sempre esteve relacionada com a virtualidade, Bergson despertou grande in­teresse por seus conceitos de “duração” e de “livre escolha”. Mas Proust, segundo Walter Benjamin, “colocou à prova a teo­ria da experiência de Bergson”. É que Proust, ao buscar no tem­po, confiou na memória involuntária, no acaso, enquanto Bergson na memória pura, que depende da escolha deliberada. O involuntário, na arte, foi decisivo a partir de simbolistas, pros­seguindo com dadaístas e surrealistas.

Estas vanguardas desempenharam seus papéis históricos e seus fundamentos prosseguiram de outras maneiras. O acaso permaneceu como uma herança para as próximas gerações – algo que se pode evitar por alguma razão, mas que apesar disso se intromete na elaboração da arte em todas as suas modalida­des. A herança a que me refiro tem um nome: a livre associa­ção. As vanguardas, apesar das diferenças entre as mesmas, queriam revolucionar a consciência. E a livre associação, dei­xando os criadores na intersecção de muitos caminhos, foi o meio adequado para descondicionar os sentidos e tudo o que daí é proveniente. Energias anárquicas deveriam revitalizar a vida, deveriam encontrar novos signos para exprimi-la tal como estava se apresentando – em sobressaltos e perdendo o contato com as fontes de sua própria modernidade.

deves voltar
deixando o começo
igual digamos à duração
flexível de um astro

Cito estes versos de C. Ronald para situar a abrangência de sua poética, que tem parentesco com o livre associar, cuja metáfora é a da constelação.

Em Todos os atos, livro de 1997, encontra-se o que C. Ronald vinha perseguindo: um método, o seu método. Os poe­mas, então, foram precedidos por uma apresentação do objeti­vo que remonta a livros anteriores, já com a têmpera de seu futu­ro como poeta. Diz ele, para começar, que os poemas surgiram com o “acaso dirigido”, descrevendo-o como experimento do “aparato formal existente e a intuição no meio de realidades preestabelecidas a partir da razão como, por exemplo, a leitura de uma frase ou de uma idéia capturada num relance ao folhear-se, digamos, uma enciclopédia”. O resultado desta experimenta­ção é o da mudança repentina de verso para verso e de poema para poema. Vários pontos de vista, em conseqüência, são justa­postos, sobrepondo sentidos manifestos e subjacentes. Mutações do conhecido, mas não por isso imprecisas: o conhecido está direcionado para o que não se conhece. O que é captado com o acaso repercute virtualmente, cujos paralelos estão na monta­gem cinematográfica e na colagem pictórica desde que não se­jam lineares. O que é dirigido põe à prova a estabilidade da cons­ciência, tornando-a refratária ao fluxo da intuição.

O método de C. Ronald faz com que se pense, outra vez, no poema que surge e no poema que é elaborado. Eis uma questão de difícil acordo, pois estar ou não armado diante do ato poético têm representações em quase todas as línguas. Um poema surge e um poema é feito. Mas o poeta de tanto trabalhar com o acaso, sendo trabalhado por ele, acaba obtendo um cristal, o irretocável.

o que temos de ver basta inventar

Não é preciso conhecer o método de C. Ronald para se verificar que ele transita do surgir para o elaborar e vice-versa. O imprescindível é a recepção de sua imagética conceitual, que “não tem nada a ver com o automatismo surrealista”, como de fato não tem. O tratamento do acaso com o intelecto, entretan­to, também foi alvo de surrealistas menos adormecidos no pe­ríodo racional ou científico. Os impulsos do acaso, de qual­quer maneira, desestabilizaram as normatizações, o que para

C. Ronald é “remover a craca que cobre a epiderme da poesia brasileira”.

C. Ronald, com o “acaso dirigido”, atingiu um vasto re­pertório de alusões, principalmente as que fazem parte do mun­do da arte, da filosofia e da religião. E Deus é uma recorrência constante, talvez por condicionamento cultural ou para confir­mar o absoluto, a eternidade e a perfeição que estão presentes em sua obra.

A forma do poema em C. Ronald, enfim, é implexa na nominação e na estruturação semântica do que é cambiante: a consciência que se tem das coisas. Os sentidos mudam confor­me os ângulos de que são pensados. Não há, em sua poética, um ponto fixo de atenção, mas vários, como na paralaxe do olhar. Multiplicidade que prepara um poema mais completo e que está, sempre, entre silêncios.