Dennis Radünz e o tubo de ensaio do poema

A força inventiva de Dennis Radünz, em Exeus, Livro de mercúrio e Extraviário, coloca-o entre os melhores poetas de sua geração. Uma geração mais disponível para usar o tubo de ensaio do poema, que tornou vários poetas de ontem e de hoje em “fúlgidas borboletas”.

A experimentação poética de Radünz pressupõe referên­cias do repertório mais avançado da poesia contemporânea, começando com Pound, Cummings e Haroldo de Campos. Isto não quer dizer que ele não cultue poetas de outras vertentes, como os expressionistas e orientais. É visível, em suas elabora­ções, o quanto estas linhas morfológicas dialogam com sua lin­guagem própria que, entre outras coisas, oscila das palavras para a consciência e desta para as palavras.

Considerando-se que para Radünz são as palavras que determinam a estrutura formal dos poemas, ele tem ciência de que a língua é um código, portanto um poder normativo que subjuga (Barthes), e obriga a dizer o que não se quer dizer (Jakobson). A percepção que se tem, em conseqüência, é que a legislação da língua, a linguagem, precisa ser baldada em seus termos de coação com a desconstrução da língua que, neste caso, para Barthes, é “fascista”.

Às vezes pergunta-se, no monólogo interior, por que um escritor supera outros, o que implica a superação de si mesmo. Muitos são os fatores que contribuem para que isto ocorra, po­rém todos em torno da probabilidade de se dizer outra vez, e desta vez com o corrigir o que antes foi dito. Esta ídéia, que aproxima a poesia das antinomias do absoluto, é levada a efei­to não meramente por rivalidades ou outros detalhes passionais, mas por reações em uma mesma comunidade de signos.

Para os que não têm medo de empregar o tubo de ensaio do poema, é inevitável e benéfico o desconstruir a linguagem. Lindolf Bell, para citar um poeta no mesmo contexto espiritual e geográfico de Radünz, por formação pensava que o poema, como objeto de permanência da prática existencial, deveria construir a identidade cultural em seu mais amplo sentido. Um sentimento de comunhão, carregado de história, posto em ver­sos da memória, da lembrança, da saudade. Bell, entretanto, procurava conter os impulsos deste romantismo tardio, tornan-do-se heróico na medida em que desconstruía a sentimentalidade no interior de certas palavras – chaves de superação do que a língua impõe. Então, distanciado de sua fé catequizante, pen­sou em levar o Vale à vala comum.

No que venho insinuando, alguns poetas corrigem as vo­zes ditas em um mesmo circuito de significados. E os curto-circuitos provocados ampliam suas possibilidades. Quando Bell conheceu o Exeus de Radünz, ainda não publicado, constatou

o inesperado: alguém dobrava e desdobrava a baía de Babitonga, dando uma imagem transmigratória cara ao poeta da Catequese poética.

Radünz, com Exeus, já estava preparado para desautorizar­se como histórico para tornar-se presente não por aquilo que foi dito, mas por aquilo que pode ser feito. E como ele respeita

b.                  o que deve ser dito, desrespeitando a tradição imposta, anagra­matizou esta aventura malfadada do histórico através de suas próprias vogais e por sinestesia de seus fósseis. “Nauemblu” foi o que deu vistas, denunciando poças de fôlegos coagulados, nassas de ossos. Se, por isto, passaram a chamá-lo pelo primei­ro nome, a estes não atribuiu nenhum exagero.