Ensaios e anseios leminskianos

Preciosos são os ensaios de um poeta que viu outros poe­tas migrarem para a crítica. O autor, Paulo Leminski, invejava a esses trânsfugas, perseguido por obsessões irreconciliáveis: inovar e comunicar. Apesar de ter considerado a atividade crí­tica como o “bem-bom da análise”, enquanto o poeta está nas “agruras das sínteses”, ele não pode evitar o texto crítico pro­priamente dito, convicto de que poetar, depois da Semana de 22, tornara-se “um ato problemático”.

É o que Leminski explica no início de Ensaios e anseios crípticos, edição organizada e introduzida por Alice Ruiz e Áurea Leminski, uma seleção de artigos publicados em jornais e inéditos que tempera seu pensamento inteligente, bem­humorado, sobre a linguagem, a cultura em geral e a história. Leminski foi precursor de uma nova e eficiente maneira de ensinar em cursos preparatórios para o vestibular com aulas performáticas, interativas. Foi num desses desempenhos que o mestre em transformar pensamento em ação teve a idéia mes­tra para o que seria a sua obra máxima, Catatau, ficção que será lida com desenvoltura por aqueles que agora estão apren­dendo a passear no parque das palavras. E Leminski advertia: “os que já são ignorantes vão ficar mais ainda”.

A Semana de 22 fez com que tantos poetas saltassem do formoso firmamento das escolas para abolir o que Leminski chamou de divisão de trabalho: “Poesia quem faz é Castro Alves, Sousândrade, Bilac, Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa. Pensar, isso é com os Sílvio Romero, os José Veríssimo, os Araripe Junior”. Com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a poe­sia começou a raciocinar. Para completar essa linhagem mo­dernista, Drummond com Alguma poesia, obra incorporadora da reflexão sobre o poema no instante da escrita. A poesia era resposta, agora pergunta.

Uma exceção, não observada por Leminski, foi Cruz e Sousa. O poeta, ainda na ilha de Desterro, atual Florianópolis, desilhava-se com o que faz a alma de qualquer povo, a língua. A sua, de negritude aportuguesada, e outras por vocação juve­nil, em especial o francês via Baudelaire. O Cruz pode ter sido epigonal em alguns aspectos relacionados com a sua forma­ção, mas não se pode negar a reversão dessa cultura em contri­buição pessoal para os avanços da poesia moderna no auge da simbolização, o único movimento em poesia e pintura a ter seu nome por iconografia. Em “Intuições”, poema em prosa com tiradas teóricas, ele escreveu que tal forma não é “impassível diante da flexibilidade nervosa, da aspiração ascendente, da volubilidade irrequieta do Sentimento humano”. E o dester­rense, ao pensar o verso, chegou à “frase no pulso”, correlato da “estranha esgrima”, de Baudelaire. Domar e polir. “Arte”, nesse sentido, é exemplar. Poema em duas versões, com tre­chos modificados, depurou a cumplicidade entre o que surge e

o que se faz. O verso, nas versões, deve ser “um pequeno esfor­ço” para não forçar a idéia. Nas duas primeiras estrofes, de ambos os poemas, respectivamente o poeta é “sereno” e “mo­derno”. O que faz o poeta, em Cruz e Sousa, entra em choque com a condição do poeta. Restituição dos embates próprios de dois mundos paralelos e antagônicos contidos na vida pastoril e na vida heróica.

Leminski, a exemplo dos inovadores, deparou-se com pro­blemáticas da comunicação, perguntando-se para quem escre­via. Escrevia por escrever, isto é, escrevia porque era a única coisa que para ele fazia sentido. E encontrar o sentido signifi­cava a possibilidade de colocá-lo em circulação. Grifo esta palavra para indicar o que melhor exprime as décadas de 1960 e 1970 e, é o caso, Leminski, sempre com “o pensamento ope­rando” em referências à contemporaneidade que abarca todos os tempos, daí a formação de seu paideuma, a tradição viva, conceito de reconhecimento entre criadores radicais, ciberné­tica: “Assim / como sempre / é sempre o futuro / que faz o passado”. Para refutar, de uma vez por todas, os detratores dos concretistas: “A ninguém o passado deve mais / do que a esses futuristas”. E para colocar a enorme diferença poética e inte­lectual dos concretistas e seus adversários.

Todo esse processo de alta voltagem inventiva parece des­conhecer os problemas do cotidiano, além de ser o oposto da eficácia de Os sertões, obra que revelou o outro Brasil para a elite brasileira afrancesada, o que lutou em Canudos contra a República positivista e juridicamente norte-americana. O pro­jeto de alfabetização de Paulo Freire também é muito mais efe­tivo para resolver o atraso cultural do que as experimentações de vanguarda. Mas, num país atrasado “não se pode desprezar nenhum repertório”, incluindo os mais avançados como o de Haroldo de Campos, “trabalhando por uma sofisticação máxi­ma da cultura letrada existente, colocando-a em condições de competir, em pé de igualdade, com a mais avançada tecnologia estrangeira”. Motivado por essas questões mais e menos aces­síveis, Leminski escreveu um segundo Minifesto, pragmático como o anterior:

A literatura de um país pobre

não pode ser pobre de idéias.

Pobre da arte de um país
pobre de idéias.
Pobre da ciência de um país
pobre de idéias.
Num país pobre,
não se pode desprezar
nenhum repertório.
Muito menos
os mais sofisticados.
Os mais complexos.

Os mais difíceis de aceitar à primeira vista.

Lembrem-se de Santos Dumont.
Sempre haverá quem diga

que num país pobre não se pode ter energia nuclear

antes de resolver o problema
da merenda escolar.
Errado.
Num país pobre,
movido a carro de boi,

é preciso pôr o carro na frente dos bois.

Porém, não seria loucura radicalizar mais ainda a inova­ção, o experimento? A pergunta encontra-se no ensaio “Central elétrica: projeto para texto em progresso”, retrospecto da cen­tral distribuidora do livro de Maiakovski ao defender-se da acu­sação “incompreensível para as massas”, um dos principais dilemas da Rússia revolucionária. Podia-se mudar o sistema político e econômico, não a tradição cultural da noite para o dia. Lenin, não é piada, dormia logo após começar a ler Maia­kovski, enquanto Trotsky, mais flexível e inteligente, percebia que as dissonâncias do poeta mais irado de sua geração expres­savam a época de turbulências. Para Lenin, com o dedo espe­tando o ar nas medíocres e oficializadas pinturas do realismo socialista, tudo se resolveria com a descrição e a vulgarização das imagens. Uma visualização ideológica mobralizante como aconteceu com a literatura brasileira em reação ao concretismo.

Então, para que servem Memórias sentimentais de João Miramar, Grande sertão: veredas, Galáxias e Catatau se vão muito além das exigências médias, teleguiadas para leituras fáceis? São protótipos destinados a produtores de informação como se lê em “Operários e camponeses não compreendem o que você diz”, de Maiakovski:

Precisamos da arte para uns poucos e do livro para uns poucos? Sim ou não? Sim e não, ao mesmo tempo. Se um livro se destina a uns poucos e não tem outra função, ele é desneces­sário. Mas se um livro é endereçado a uns poucos como a ener­gia da central elétrica de Volkhovstroi se dirige a umas poucas estações transmissoras, para que essas subestações distribu­am pelas lâmpadas elétricas energia reelaborada, então sim, semelhante livro é necessário. Tais livros são endereçados a uns poucos, mas não consumidores e sim produtores.

Com os ensaios de Leminski desfruta-se o pensar bem que implica em escrever bem. Isso já transbordava nas cartas a Régis Bonvicino, nas quais os impasses entre repertórios comuns e incomuns não o impediam de liquidificar, sem máscaras aca­dêmicas, o erudito e o popular. Leminski encontrava no erudito

o popular e vice-versa. Não são assim as obras de Drummond e João Cabral, Noel Rosa e Villa-Lobos, Goeldi e Segall?

Em Leminski, assim como em todas as mentes ultravio­letas, percepção, memória e imaginação ativavam-se mutua­mente, formando uma experiência semiótica polissêmica. Sem sujeitar-se às ilusões, ele logo constatou que é fácil negar a tradição, difícil é colocar algo novo em seu lugar. A máxima de Bashô, de quem traduziu haicais e escreveu uma biografia in­superável, é perfeita para defini-lo: “Não sigo os antigos; bus­co o que eles buscaram”.