No sertão das palavras

A obra-prima de Guimarães Rosa, Grande sertão: vere­das, foi publicada no início dos anos 1950, década de flores-cimento cultural que fez o país entrar, definitivamente, na modernidade. O principal índice daquela época, chamada de “a imaginação no poder”, é composto pela implantação da Bienal de São Paulo, pelos surgimentos da Bossa Nova, do Concretismo, do Neoconcretismo e pela construção de Brasília.

Guimarães Rosa faz parte de um planeta de raros autores, em cuja órbita encontram-se heranças da Semana de 22, come­çando com Oswald de Andrade com o antropofágico, de propo­sição regional, especificamente brasileira ao não se dobrar às vanguardas internacionais, mas querendo ser vanguarda em fun­ção, nas palavras de Mário de Andrade, do “direito permanente à pesquisa estética, à atualização da inteligência artística brasilei­ra e à estabilização de uma consciência criadora nacional”.

Guimarães Rosa é visto como um escritor “hermético”. Quando se atribui hermetismo à sua obra, o melhor não seria dizer-se que há uma preguiça mental generalizada e provocada pelo hábito de leituras amenas, leituras de autores previsíveis? E alguns críticos de literatura acabam agravando a situação, como se não soubessem que o gosto é produzido pelo hábito, apontando defeitos em obras que são as suas mais fundamen­tais qualidades. Dois exemplos são suficientes para ilustrar essa falta de lustre intelectual: a não-linearidade em Memórias sen­timentais de João Miramar e a desconexão entre as partes em Vidas secas.

No livro de Oswald de Andrade, que influenciou Mário de Andrade ao escrever Macunaíma, os aspectos cronológicos de João Miramar somente podem ser reconstituídos com a lei­tura da narrativa em fragmentos, propositalmente dissociada na seqüência temporal. É o leitor que dá vida linear à persona­gem, sendo, a narrativa, uma prova para a capacidade de me­mória do próprio leitor. A leitura do livro, por outro lado, pode ser iniciada em qualquer fragmento, sem perda da imagem de João Miramar e da coerência literária. A memória manifesta-se por descontinuidade, em vários tempos conforme a disponibili­dade da lembrança e da indisponibilidade do esquecimento.

No livro de Graciliano Ramos, que pela primeira vez ado­tou a narração na terceira pessoa, cada parte em sua autonomia estrutura-a com a característica peculiar do monólogo interior, que está sujeito a interrupções, lacunas, pontos cegos. Vidas secas, em suas partes independentes (contos de uma novela) tangenciam a desagregação de Fabiano e sua família. Se o mo­nólogo interior não fosse isso, Faulkner não teria escrito, com rupturas temporais, Enquanto agonizo.

Novos campos semânticos – como os apresentados por Oswald de Andrade, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, en­tre outros – não podem ser lidos como se lê a literatura antece­dente, não importa qual seja o autor. Pode ser o mais represen­tativo, como Machado de Assis. O que ocorre, como inevitabi­lidade das mudanças, são reações inventivas que, na presente abordagem, refere-se ao monólogo interior, tendo como for­mulação filosófica o “fluxo de consciência”, de William James, passando por Henri Bergson e com variações literárias desde Lautrèamont até Joyce.

Em Grande sertão: veredas, entre o Riobaldo direto e in­direto insinua-se a passagem do diálogo para o monólogo, ain­da mais considerando-se o vínculo da narrativa com a cultura oral em suas amplas manifestações no sertão, de muitas lín­guas que pressupõem as adversidades e os alumbramentos da paisagem física e social. Um entreouvir de Guimarães Rosa, ao longo das gerais, para ser lido além do léxico como sugeriu a Edoardo Bizzarri, seu tradutor italiano. Desse cruzamento, pro­fícuo para a literatura, iniciou-se uma correspondência eluci­dativa de outro léxico, o de Guimarães Rosa. Para deixar à von­tade o bizarro Edoardo diante da imensa verbalidade de sua obra, a ele confiou: “Eu, quando escrevo um livro, vou fazendo como se o estivesse ‘traduzindo’ de algum alto original, exis­tente alhures, no mundo astral ou no ‘plano das idéias’, dos arquétipos, por exemplo. Nunca sei se estou acertando ou fa­lhando nessa ‘tradução’. Assim, quando me ‘re’-traduzem para outro idioma, nunca sei, também, em casos de divergência, se não foi o tradutor quem, de fato, acertou, restabelecendo a ver­dade do ‘original ideal’, que eu desvirtuara...”

Edoardo Bizzarri, na correspondência, começou pergun­tando sobre a palavra vereda, uma definição – recebida em de­talhes, veredas de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Piauí e Mara­nhão. Regiões com chapadas e chapadões de solo poroso: “Nem se vê que choveu”. É o cerrado, de vegetação pouca, “menos do que mínima”, que persiste por pivotantes mergulhos das raízes. O capim cresce incrustado de sílica, que adoece o gado. No meio das chapadas estão as veredas argilosas, de onde a água aflora. Tendo buriti, tem água. Como “a vereda é um oá­sis”, as encostas são úmidas, os resfriados. “Em geral, as estra­das, na região, preferem ou precisam de ir, por motivos óbvios, contornando as chapadas, pelos resfriados, de vereda em vere­da”. Os habitantes das veredas são os veredeiros e os da chapada, geralistas, palavra que também nomeia a todos daquele “ínti­mo”. Além do buriti, nas veredas nascem a buritana, o sassafrás e a pindaíba.

As traduções de Edoardo Bizzarri surpreenderam Guima­rães Rosa a ponto de escrever que gostaria de ser seu discípulo. As elucidações roseanas contribuíram para que a tradução fos­se bem-sucedida, como também a ciência do tradutor sobre a língua em suas conotações universais, ainda mais no imaginá­rio da população veredeira e geralista, de tantas falas, do portu­guês arcaico a outras línguas estrangeiras. Na medida em que ia esclarecendo os termos, Guimarães Rosa indicou o cami­nho: “Andemos antes para o reino do transcendente, do poéti­co, do vago”.

Com as listas de palavras enviadas por Edoardo Bizzarri, os mistérios de uma cultura agreste e mística foram revisitados pelo autor, cujo vocabulário renova-se por seu nomadismo de sentidos – falados, cantados e iconografados. Eis alguns signi­ficados destas existências alhures, “traduzadaptadas” por Gui­marães Rosa: tinha tirado por tino – tinha deduzido, ou calcu­lado, chegado a uma idéia ou conclusão de raciocínio; argume – a face polida da água, a lâmina líquida prateada; deu des­cordo – desânimo súbito, medo raciocinado; escogitava – co­gitava, pensava com insistência, refletia seriamente; resumia do nada – não dava importância; até queria que brilhos does­sem – (ânsia de afã místico de Miguilim, angústia religiosa em ação). No fervor, era como se quisesse ascender à experiência salvadora de brilhos (a “glória de Deus”), e que esses brilhos doessem: isto é, senti-los, em si, no próprio corpo, carne, para certeza de sua realidade, supra-realidade; cantava silêncio de cantigas – cantigas que impunham silêncio, que encerravam magia estranha como a que há no silêncio, na solidão; mão me tenha – fórmula arcaica de se apostrofarem valentões e desor­deiros: (que) (uma) (qualquer) mão te (con)tenha; reflagidos – queixas e explicações, choramingas; saramicujo – com atitu­des e gestos afetados, teatrais, burlescos, fazendo rapapés; serenância – ar ou efeito hierático, sacerdotal, ou de dançari­no de minueto ou de atenção embevecida, religiosa; januária – cachaça fabricada no município de Januária, Minas Gerais; beijadeira – cachaça carinhosamente chamada assim, pelos “beijos” que o bebedor lhe prodigaliza; moça-branca – petu­lância, jovial e desabusada, de rapaz namorador. (Moça-bran-ca é também um dos sinônimos “carinhosos” da cachaça); di­vulgo – conheço ou reconheço; encadeando espíntrias – você sabe, a maior parte dos caracóis são hermafroditas. Assim, ao acaso, um copula o outro, mas chega um terceiro e copula o segundo, e mais um quarto etc, formando às vezes longos en­cadeamentos de machos-fêmea a um tempo; expedia – tirava de si, arrancava ou expedia de si (a música), executava (a mú­sica) com autêntica personalidade; loxías – sabedorias com­plicadas, sentenças pedantes. (Há um sabor pretensamente eru­dito no termo que o caipira usou. Note como ele dá ar de gre­go, lembra... logia ou doxia, ou loxodrômico etc).

Estas e outras palavras lavadas e transvistas(íntegras e trans­parentes) foram para Edoardo Bizzarri de “grande valor de ori­entação poética”, em muitos casos excedendo o sertão primitivo e mágico com as alusões de Guimarães Rosa a Dante, ao Apocalipse e ao Cântico dos cânticos, tudo por onho (o medo­nho), o-que-não-se-sabe-ainda-o-que-é numa escrita distanciada do cerebrino (do cerebral), próxima da “efervescência do caos, trabalho quase mediúnico e elaboração subconsciente”.

É notável o quanto rever palavras fizeram Guimarães Rosa refletir sobre a sua forma de escrever, colocando-se no lugar velado do médium, com toda a simpatia por Miguilim, perso­nagem feita de entusiasmo, que é o estar no divino. Na simpli­cidade de Rosa-Miguilim não se esconde o imanente e o trans­cendente. À parte a idéia de que os motivos roseanos situam-no em uma esfera sobre-humana, nele encontrava-se a necessi­dade de aferir a gramática inventando-se na conversação co­mum, corrente, nem sempre verificável etimologicamente por sua arbitrariedade, vertida com enganos de construção verbal, erros de pronúncia e outros desvios gramaticais.

Guimarães Rosa beneficiou-se da anamnéstica, típica dos veredeiros e geralistas, com a oralidade que se aproxima dos “fatos significativos” de Bergson, um de seus autores preferi­dos. As imagens aparecem graças ao que as palavras emitem ou as coisas tornam-se reais a partir do momento em que se obtenha as palavras para pensá-las. Tanto Guimarães Rosa como Bergson chegaram à conclusão que tais significativos deveri­am ser adivinhados ou, o que dá no mesmo, descobertos por trás da aparência mais aparente, na aparição.