O poeta da oralidade

A oralidade caracterizou os poetas que se empenharam em abreviar a distância entre a poesia e as pessoas. Muitos de­les queriam mudar o mundo ou apresentar outros pontos de vista acerca dos problemas humanos. Maiakovski, Evtuchenko e Neruda, para citar os mais conhecidos. A oralidade é ampla e diversificada tradição. Em tempos menos ou mais avançados. Aproxima línguas e reinventa-as. Nos desertos, nos templos, nas rodas do renga. Ficções como as de Joyce e de Guimarães Rosa beberam na cultura oral.

Na entrevista concedida por Lindolf Bell a Ieda Inda e Flávio José Cardozo, publicada no segundo fascículo Escrito­res Catarinenses, em 1990, encontramos o poeta com o escrito na ponta da língua, recordando sua mãe lavradora, filha de rus­sos, que em ocasiões especiais declamava poemas. Bell cres­ceu com esta voz transformadora do ambiente em que as árdu­as jornadas de trabalho, do imediatamente útil, pediam pausa, refrigério.

Os poemas ditos por minha mãe eram uma imagem sono­ra, eles me passaram esse profundo arraigamento, essa pro­funda necessidade de preservar uma idéia de oralidade dentro do poema.

Os núcleos de atenção lírica de Bell mudaram ao longo do tempo, não a oralidade. Mesmo sabendo que a partir dos anos 1950 a poesia brasileira aproximou-se cada vez mais da visua­lidade, o que, para muitos, levou-a ao impasse. Os próprios poetas foram os primeiros a refutar essa formalidade, o design do poema, como assinalou Décio Pignatari. Os mais tradicio­nais, mentalidades estáveis, até hoje pensam que a experiência concreta foi um engano. Equivocam-se: o concretismo, se as­sim fosse, não teria se transformado em cultura.

Bell não pensava desta maneira. Tanto é que, mais tarde, introduziu a palavra em suportes mais dinâmicos do que o li­vro, mobilizando-a no dia-a-dia. Por mais visual que fosse o poema, para ele ali estava a oralidade: “a minha idéia básica do poema sempre permaneceu esta por mais gráfico que o poema seja e ainda que ele seja totalmente gráfico e ainda que você só o leia com os olhos, o som do poema é essencial”.

A persistência oral de Bell levou-o a uma atitude pública por demais conseqüente com a Catequese Poética, iniciada em 1964. E essa atitude, em caráter de urgência política, direta ou indiretamente foi a de toda uma geração que não queria sub-meter-se ao golpe militar. Época de resistência, de “passeatas sígnicas”, nas palavras de Leminski. A contracultura redefiniu

b. o cenário artístico brasileiro. Mas Bell não praticou a poesia alternativa, predominante nos anos 1970. A Catequese, entre­tanto, deve ser vista como alternativa, pois os meios de comu­nicação estavam sob a censura. O espaço público foi o lugar adequado para o exercício da liberdade de expressão, tendo a palavra como o principal veículo. E como para ele o sentido da palavra dependia do som, suas locuções instalavam a cumpli­cidade no espaço dos ouvintes, o entreouvir, fazendo do poema uma pedagogia do perceber, o que Joseph Beuys praticou como escultura invisível – da fala – que atua como intercâmbio e atualização de idéias. Beuys concluiu que as mudanças artísti­cas deveriam atingir o organismo social para “provocar a ener­gia das pessoas e conduzi-las a uma discussão geral sobre os problemas presentes”.

É bem improvável dissociar a vida agrária (na qual Bell foi educado) do sentimento religioso. Ele mesmo afirmou, na entrevista citada, que “somos seres religiosos. Nós só não so­mos religiosos se não nos ligarmos ao mundo e a nós mesmos. Porque a religião é isso, é religar-se (religare) ao mundo. Ser religioso é estar em contato com o visível e o invisível”. Esse sentir do poeta foi lírico, “natural”, como declarou sobre a ela­boração do poema. Dito em viadutos, praças, escadarias etc.

Em um período de coação, o lirismo de Bell deve ter sido um recado subliminar – lúdico e telúrico para quem vivia sob as pressões das metrópoles. Mesmo aqui, recordo, os integrantes da Catequese não deixaram de exercer uma certa solenidade heróica, principalmente Bell e Érico Max Müller, o que não era de se estranhar em dois poetas que transformaram suas poé­ticas pastoris em vigilância tipicamente urbana.

Mas o que dizia o poeta, com pleno domínio da oralidade? Dois livros, publicados no início da Catequese, são sugestivos: Convocação e A tarefa. É notável a exaltação da voz do poeta em ambos os livros. Urgência do dizer, alerta para o agir em conjunto. Poesia reativa, pensamento na ação.

A exaltação não foi abandonada nos livros posteriores, incluindo os do retorno ao vale de suas raízes. Agora reconvo-cando-se para devolver ao mundo a esperança de sua origem amena e convulsiva, convocando os demais, cujo teor encon-tra-se no Canto antropofágico barriga-verde:

Engolimos a esperança.

E por isto somos barrigas-verdes.

Sobretudo e sobre todas as coisas (mesmo que a história ensine o contrário e prove-o), esta é a razão de sermos barri-gas-verdes.

BARRIGA-VERDE! Engolimos a esperança e ainda estamos aprendendo a digeri-la. Depois de tantos anos. De­pois de tanta esperança.

É a nossa antropofagia verde-carijó derramada nos cam­pos de Ibirama, nas colinas do Vale do Itajaí, em águas do mar de Desterro e coloniais arquiteturas de São Francisco da Baía de Babitonga.

Depois de tantos anos é a antropofagia catarinense apren­dendo a não ter medo nem vergonha de ser barriga-verde, em-punhando-se e impondo-se de dentro para fora, verde espe­rança dentro da boca dos poetas, das mãos dos escultores, pin­tores, desenhistas e gravuristas, dos olhos de cineastas e fo­tógrafos, na palavra de dramaturgos, romancistas e contistas, no som dos músicos populares e eruditos, no movimento de dançarinos e sonhadores, no corpo todo das criaturas dando o chute inicial para a grande festa, verde festa móvel que te que­remos doidamente colorida, movimento verde dos ventos em nossos cabelos e nossas salivas e saúvas e nossos mandiocais.

É a antropofagia da verdeza após o tempo esplêndido do sono, após a longa refeição da história.

É a antropafagia da alienação, do silêncio, do espara­drapo, do cano de óleo enfiado na garganta, da cana em flor ao longo dos rios, da terra sobre a terra, sobre o coração da gente pondo primaveras ao longo das lonjuras.

Antropofagia moída nas moendas, nas viagens para den­tro da imaginação, esperança capinada pelas enxadas, olhada pelos olhos postos na esperança.

Esperança dormindo como uma cobra d’água-terra den­tro da memória, da mente, dos nervos do corpo todo que se re­tesa e dá o salto, o bote do movimento, e decreta (outra vez) a liberdade de criação e instaura o selvagem conhecimento da Serra do Mar e o desconhecido coração do homem como me­dida destas afirmações.

Engolimos a esperança.

Começamos a devolvê-la ao mundo.

Além do otimismo resoluto, o Canto recorre aos truísmos: moer de moenda, capinar de enxada, olhar de olhos. Afirma­ção da vida por meio da ontologia do sensível. As coisas são aquilo que fazem, mas o Canto é também sobre a perda. Talvez

o último livro publicado em 1984, O código das águas, seja a culminância deste acerto de contas com a esperança. Talvez, porque sabemos pouco sobre Anima mundi, obra inacabada em função das circunstâncias. A esperança, no código, não pode ressuscitar o que está no esquecimento. Inútil é a lembrança do tempo antes da palavra, mas palavra ainda em “restos” e “ras­tos” que guiam o poeta ao infinitivo, este lugar suspenso, se­melhante ao do “anjo novo”, de Paul Klee, acima das ruínas que se acumulam sobre ruínas. Este anjo da história gostaria de ficar ali, de costas para o futuro, mas uma tempestade o empur­ra para frente, para o devir.