Lucrécio, em seu estudo sobre a natureza das coisas, pensou o clinamen, o desvio dos átomos quando se movem em linha reta através do vazio. Sem este desvio, que é por colisões indeterminadas, coisa alguma poderia ser criada pela natureza.
A constatação atomista de Lucrécio pode ser aplicada fora de seu contexto. Harold Bloom, por exemplo, nas reflexões sobre as “relações intrapoéticas” – que são as influências entre poetas – empregou, entre outros princípios também recolhidos em fontes clássicas, o clinamen, tomando-o como o conceito central da influência. Os poetas, com o clinamen, desviam-se uns dos outros para encontrar as suas próprias vozes, “um espaço de fabulação”. O confronto entre poetas, conforme Harold Bloom, é a história da poesia, que, inevitavelmente, gira em torno de linguagens canônicas.
A idéia de clinamen, além disso, provoca várias obras da literatura como se a palavra fosse o meio mais adequado para a declinação. Com esse ponto de vista, e para pensar o desvio, tomo como referência Dostoiévski, Kafka e Camus, autores que podem ser lidos a partir de um mesmo prisma: o pesadelo da razão. Para tanto escolhi uma obra de cada um deles, respectivamente Notas do subterrâneo, América e O estrangeiro, dando ênfase aos seus inícios, que são detentores, precursores, das problemáticas de seus personagens.
Dostoievski iniciou Notas do subterrâneo com toda concisão: “Sou um homem doente”. A frase, pela concentração de energia, desvia a personagem de sua condição. Este desvio apre-senta-o mais desenvolvido politicamente com relação a antecedentes desde Puschkin e Gogol, desenvolvimento que dependeu dos avanços personificados por estes autores. A afirmação, aparentemente, sugere uma desculpa. Porém, sob a aparência está a admissão. Ele afirma, categoricamente, que é doente como uma maneira de expor a sua alienação imposta pelo sistema de terror hierárquico czarista. E a doença é o que impele o homem do subterrâneo a transformar idéias em ação. Ele, gradualmente, vai de encontro ao reconhecimento de sua condição. Subalterno, humilhado e ofendido, ao confrontar-se com o oficial superior, conscientiza-se que na sociedade em que vive somente iguais com iguais podem se bater. E o homem do subterrâneo vai mais longe.
Eis uma saga fascinante e aterradora, tendo como motivo e cenário uma cidade que foi construída como uma “janela aberta para a Europa”. O Iluminismo, protagonista dos iguais com iguais para a opressão dos que não são iguais nas leituras de Horkheimer e Adorno, foi importado por Pedro, seguido por Catarina. Os czares temiam a Europa e queriam se igualar a ela: queriam ser a Europa.
A “janela” é São Petersburgo, construída às margens do Neva (lama, pântano), que corre para o Báltico, passando pela Estação Finlândia, onde Lenin subiu em um carro blindado para os desfechos de 1917, motivo para um monumento com seu gesto costumeiro, “com a mão espetando o ar”, nas palavras de Joseph Brodsky. Antes deste monumento, há outro, em bronze, e de Falconet, escultor francês com poucos atributos indicado a Catarina por Diderot e Voltaire. Uma homenagem ao “construtor miraculoso”, Pedro o Grande.
A cidade construída por Pedro, ele mesmo carpinteiro naval com estudos em estaleiros da Holanda e da Inglaterra, foi um projeto audacioso e estratégico para a nação. Para Brodsky, com apenas um instrumento, a régua. Uma cidade retilínea ao longo do Neva e seus canais. Brodsky informa que a capital da Rússia passou a ser chamada amistosamente de “Peter” como uma forma de exorcizar seus fantasmas.
Gogol, ficcionista à frente de seu tempo, quando se referiu a São Petersburgo, sabiamente sintetizou a cidade: “Estrangeira em sua própria pátria”. Este sentimento desconfortante, com profundas marcas psíquicas em seus habitantes, também transformando-os em estrangeiros, empurrou-os para outra realidade, esta ficcional, cuja literatura começou a dar voz com Puschkin. Diz Brodsky que o “interior tanto concreto quanto mental da cidade, de seu impacto sobre as pessoas e seus mundos interiores tornou-se o principal assunto da literatura russa praticamente desde o dia da fundação da cidade. Em termos técnicos, a literatura russa nasceu aqui, às margens do Neva”.
Em O cavaleiro de bronze, de Puschkin, o herói, ao desafiar Pedro, colocou a literatura russa no rumo de desenvolvimentos políticos. Evgeni, numa das enchentes do Neva, agar-ra-se em um dos leões em torno do monumento de Pedro, na praça do Senado e, perplexo, olha o “ídolo” que se eleva incólume nas águas turbulentas e perscruta o horizonte pensando em Parasha. No dia seguinte, com as águas mais calmas, aluga um barco e vai até a casa da amada, humilde como ele, e não encontra nenhum vestígio. Evgeni, a partir deste momento crucial, vaga pela cidade transtornada, transtornado. É apedrejado pelos garotos, açoitado pelos cocheiros. Porém, ele nada sente. Mas ao se aproximar da praça do Senado, lembra que ali esteve durante a enchente. Subitamente a ira domina seus pensamentos perturbados pela loucura: “Ainda acertaremos contas!” É o que vocifera ao cavaleiro de bronze, sendo perseguido por seu tropel e pelas vagas da enchente que ainda ressoam em seus ouvidos.
Com a personagem que tem “o subterrâneo na alma”, de Dostoievski, as ações na Nevski se desdobram em direção de uma autoconsciência mais desenvolvida dos direitos pessoais. A autocracia russa, uma tradição secular, excluiu os súditos de seus projetos. Porém, em um processo angustiante de reconhecimento, eles começaram a sair de seus isolamentos a partir de 1860. Logo no início de Notas do subterrâneo, a personagem sai da solidão imposta ao presenciar, passando por uma taverna, um tumulto com alguém sendo atirado pela janela. O incidente, um desvio fundamental para que ele se desenvolva, estimula a sua imaginação a tal ponto de querer passar pelo mesmo. Contudo, ele terá que esperar, ou melhor, terá que passar por confrontos e mudanças pessoais para que algo semelhante aconteça.
Sentindo-se “mais vivo”, o homem do subterrâneo entra na taverna e se coloca no caminho do agressor, um oficial corpulento que, sem dar nenhuma atenção a ele, afasta-o de sua passagem: “Tomou-me pelos ombros e, sem uma palavra, sem um aviso ou explicação, moveu-me de onde estava para outro lugar e passou como se não tivesse me notado”. É o instante de substancial constatação. A descoberta, “eu não era um igual nem para ser atirado pela janela”, prepara-o para a consciência mais ampla em torno de sua condição no sistema social vigente. Sistema de castas que o faz pensar que é “uma enguia”, “uma barata”, “um espaço vazio”.
Dostoiévski, depois deste episódio, leva à exaustão os dilemas do homem do subterrâneo, sempre alimentando o confronto com o poder como uma maneira de apreender suas anomalias provocadas pelo oficial superior, o qual não podia tratar “de igual para igual”. Por que ele tinha que “ser o primeiro a se desviar?” As castas, apesar de revogados seus direitos sobre o corpo e a alma dos súditos, continuavam exercendo seus privilégios. E o homem do subterrâneo faz outra descoberta importante. O oficial também é uma “enguia” ao ceder passagem a seus superiores. Animado pela observação inusitada, ele torna-se mais ativo e confronta-se com o oficial em plena rua.
E eis que me veio de chofre um pensamento surpreendente! “Que tal” – pensei – “encontrar com ele e não ceder passagem? Que tal eu não ceder passagem intencionalmente, ainda que seja preciso chocar-me com ele? Que aconteceria?” Essa idéia atrevida apossou-me pouco a pouco, a tal ponto que não me deu mais sossego.
O atrevimento do homem do subterrâneo é o comportamento revolucionário que está sendo posto em prática em São Petersburgo, na década de 1860, começando com o “cavaleiro misterioso”, em setembro de 1861, ao galopar pela Nevski atirando o panfleto “À geração mais jovem”.
Não temos necessidade qualquer de um czar, imperador, do mito de algum amo, ou da púrpura que mascara a incompetência hereditária. Queremos como líder um homem simples, um homem do campo, capaz de compreender a vida das pessoas e que seja escolhido pelo povo. Não necessitamos de um imperador consagrado, mas de um líder eleito que receba salário pelos seus serviços.
Ainda em setembro do mesmo ano, os universitários organizaram uma grande manifestação em protesto às medidas que proibiam reuniões de professores e alunos, excluíam bolsas etc. O resultado foi tiroteios, prisões e o fechamento da universidade por dois anos. Estas manifestações, incluindo os “dezembristas” uma década depois e outros levantes que culminaram com o “domingo vermelho” e a renúncia do czar, fortaleceram a possibilidade de uma revolução de fato, e que ocorreu, finalmente, quando Lenin desembarcou na Estação Finlândia.
Comparado com outro autor contemporâneo, Dostoiévski é um escritor cuja autonomia inventiva torna-o um caso isolado, um fenômeno literário. A literatura russa, depois dele entrou em declínio metafísico ao se confinar cada vez mais na imitação, até atingir a paralisia com o Realismo Socialista. Dostoiévski não teve continuação na Rússia por ter atingido uma insuperável realização espiritual, autor que, para Brodsky, “tratava a língua não como romancista, mas como poeta – ou como profeta bíblico, que propõe a seus ouvintes não a imitação, mas a conversão”.
Dostoiévski é recepção para a literatura ocidental, encon-trando-se em Kafka um escritor à sua altura exatamente por ser o portador de terríveis revelações, cuja textualidade é a interpretação daquilo que atormentou os homens reflexivos do final do século 19 e início do século 20: a cisão entre ser e consciência. Para esta cisão, que atingiu proporções muitas vezes à beira do niilismo, o exíguo desvio, a declinação mínima, foi o suficiente para desencadear mudanças decisivas como nos textos de Kafka. Ele, mais do que qualquer outro escritor, estava sob o foco do desvio, expondo esta situação limite em várias oportunidades em sua textualidade, das quais destaco duas. Kafka afirmou que a mais minúscula pequenez pode “decidir a existência de um homem” e que no equilíbrio que oscila nos agarramos à borda do círculo que é nosso, que “nos pertence; porém nos pertence até quando o temos; se em algum momento nos desviamos um pouco lateralmente – em qualquer esquecimento nosso, em uma distração, um susto, um pasmo, um desfalecimento – é aqui que o temos perdido no espaço; até agora havíamos metido o nariz no fluxo do tempo, agora retrocedemos; antes nadávamos, agora vagamos e estamos perdidos. Estamos fora da lei, nada o sabe e entretanto todos nos tratam assim em consequência”.
América, entre outros livros de Kafka, é paradigma do desvio, começando com Karl Rossmann ao chegar no porto de Nova Iorque, ao qual retorna em seguida por ter esquecido o guarda-chuva a bordo do vapor, antes vendo, no lugar da tocha da Estátua da Liberdade, uma espada. O retorno, provocado por algo fortuito, exíguo, leva o personagem a encontrar o foguista, a quem se liga com profunda amizade, ao mesmo tempo conhecendo um tio, que é senador, acompanhando-o no transcurso à terra. Ao se deter com mais atenção em seus olhos, Rossmann “começou a duvidar de que este poderia substituir o foguista”.
América é um romance inacabado e iniciado a partir de um conto publicado em 1913, O foguista – um fragmento. E Kafka havia lido David Copperfield e uma biografia de Dickens, notícia suficiente para que paralelos fossem traçados entre os dois escritores; como menciona Ernst Pawel, supostos desajustes edipianos, traumas infantis etc. Pawel acrescenta que a influência de Dickens é “um objeto nitidamente estranho”, pois Kafka era incapaz “de seguir as pegadas de outros escritores”.
Sem se deter nestas questões, o fato é que Kafka chegou, no começo daquela década, a conclusões fundamentais sobre o escrever e sobre o escritor. Ao se dirigir a Rowohlt, que editara O foguista, Kafka diz que “a manifestação mais comum de individualismo entre os escritores consiste, precisamente, nas formas específicas com que cada um oculta suas próprias deficiências”. Nesta direção pode-se rastrear e apreender o inacabado nos livros que Max Brod chamou de “trilogia da solidão”, cujo agonismo, levado às últimas conseqüências, exigiu de Kafka soluções sobre-humanas ao tratar do humano.
Textos que não terminam, soluções adiadas, esboçadas, mas consideradas incompletas para os desfechos da “trilogia”
– América, O processo e O castelo. Rossmann, para ilustrar, é deixado em um trem sem que se saiba para onde vai, o que, por inversão, nos leva à parábola em A próxima aldeia. Os livros inacabados definem o que todo escritor digno desse nome realiza: não a representação de uma angústia, porém a angústia mesma do ato de escrever, angst vor etwas, as expectativas ansiosas.
Nos diários, um mapa completo para se encontrar Kafka, várias vezes ele menciona a única coisa que não poderia deixar de fazer: escrever. O texto estava gravado, como em Colônia penal, em seu corpo. Nos reflexos de uma tradição, o mundo judeu, Kafka é herdeiro da textualidade praticada como religião, mas religiosidade no ofício da escritura que o inscrevia entre dois mundos paralelos: a tradição e a modernidade. Se esta religião, como o próprio nome diz, foi uma tentativa de religar ser e consciência, não se deve negligenciar o que Garaudy pensou sobre o escritor: “A experiência fundamental de Kafka é o fato de ser estrangeiro e de necessitar uma permissão de residência no ser”.
O parecer de Garaudy permite a aproximação de Kafka e o judaísmo, relação com ecos em torno da revelação, tendo como impulso o que salientou Dagma Eisnerovà: “A incerta destinação do homem”. A incerteza, tendo como medida a condição existencial do homem judeu e a cultura hebraica, é o próprio motivo da linguagem kafkiana, assim seus freqüentes desvios. No entanto, como Borges pensou, todas as circunstâncias de uma época, incluindo a Primeira Guerra Mundial, não são focos narrativos diretos, proporcionando, no futuro, leituras de Kafka sem que se saiba que ele escreveu no início do século 20.
Quanto ao judaísmo e a cultura hebraica, Kafka foi um insólito observador ao ter feito da interpretação o elemento mesmo da ficção. E Kafka, com a mística laica, empreendeu visionária interpretabilidade dos conflitos do homem moderno. A parábola foi o instrumento adequado para a interpretação e a revelação, mesmo que para Scholem a revelação kafkiana fosse decepção. Vários são os textos de Kafka que encerram visões revelatórias que elucidam o que somos ou o que deveríamos ser.
A visão de Rossmann apresenta peculiar sentimento de Kafka ao se deparar com os mistérios da revelação. Para Kafka, acentua Robert Alter, a remissão continha “uma ameaça em potencial”. Sentimento histórico que fez Kafka se voltar para a escrita judaica, segundo ele – no caos do mundo moderno – “um assalto contra as fronteiras”.
O assalto kafkiano tem múltiplas versões em outros autores do século 20. Camus é um deles, com os paradoxos existenciais, com a incerta finalidade do homem, mesmo que tenha pensado, e contribuído para tanto, que o homem deveria construir a sua vida por conta própria.
“Hoje, minha mãe morreu ou talvez ontem, não sei bem”. É assim que Camus iniciou O estrangeiro, obra que continua enigmática, porém claramente desenvolvida em seus propósitos ficcionais. O acontecimento, que leva o leitor a entrar em contato com a indiferença de Meursault, provoca um desvio considerável em seu futuro próximo, como se ele, após a morte da mãe, que não via há muito tempo, tivesse obtido uma espécie de consentimento para levar a efeito impulsos ocultos, irracionais. Mas esse desvio, a conseqüência, vai se configurar mais tarde.
Tais impulsos, como se sabe no último capítulo da primeira parte da obra, concentraram-se em um breve instante, fatal, o assassinato do árabe. Naqueles momentos, Meursault lembra que o dia estava abrasado “pelo mesmo sol do dia em que a minha mãe fora enterrada”.
A lembrança de Meursault confirma o consentimento, pre-cipitando-o para a desgraça que a audácia ficcional de Camus transformou em inocência. Meursault, ao se aproximar do árabe após outras aproximações, comprime o gatilho contra o sol que devora sua pele, atingindo o árabe que, de alguma forma estranha, também queria ser assassinado. E há, neste desfecho, uma espada que tem reverberações míticas.
Mas dei um passo, um só passo em frente. E desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a navalha do bolso e mostrou-ma ao sol. A luz refletiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-me com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que
o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz.
O estranhamento desta passagem oferece a possibilidade de examinar equívocos em torno de Camus. Ao receber, em 1957, o Nobel em Estocolmo, Camus se apresentou com um termo, seu termo: “artista”. Mais tarde, a ele perguntaram: “Que lhe parece o que os críticos franceses negligenciaram na sua obra?” Camus respondeu: “A parte obscura, o que de cego e instintivo há em mim”. E, assim, remonta-se a Sartre, sem dúvida um oponente que não poderia fazer outra coisa a não ser ocultar as suas próprias insuficiências com os ataques a Camus.
Para Sartre, que cresceu no seio da burguesia, a literatura fazia parte da educação, ao passo que na infância e na adolescência pobres de Camus os livros não poderiam deixar de ser objetos raros, inexistentes até. Pois foi esta educação que fez Sartre conviver com o “divórcio entre a literatura e a existência” que somente na maturidade tomou consciência, como observa Paul Viallaneix, que acrescenta: “Camus, descobriu-o, pelo contrário, com a própria aprendizagem da leitura”. A descoberta de Camus levou-o bem cedo à autoconsciência de seu papel de artista-escritor, ao qual, indevidamente, se exigia a marca do filósofo e do moralista. E Camus, pouco antes do trágico acidente, escreveu:
Sei-o de ciência certa, que a obra de um homem não é outra coisa senão este longo caminhar para encontrar, através dos desvios da arte, as duas ou três imagens simples e grandes para as quais o coração, ao princípio, se abriu. Eis porque, talvez, depois de vinte anos de trabalho e de produção, continuo a viver com a idéia de que a minha obra ainda nem sequer começou.
Camus, desta maneira, alinha-se ao “nada começou ainda”, de Kafka, e, textualmente, conota o objetivo conceitual deste ensaio: o desvio. Os desvios, como foram vistos em O estrangeiro e nas demais obras, perfazem uma atitude inventiva sem precedentes para os artistas modernos. Não há um modelo, como para as obras do passado, porém um acúmulo de possibilidades que se alteram a todo o instante. As alterações para o personagem de O estrangeiro estão na estrutura do texto, em duas partes que lembram o avesso e o direito, presentes no pensamento de Camus que, nos Cadernos, anotou: “o sentido do livro reside exatamente no paralelismo entre as duas partes”. O paralelo tem reflexos que se intercambiam, tendo como núcleo gerador o assassinato do árabe. A inocência, na primeira parte, mesmo com a culpabilidade do cometido por Meursault, na segunda parte ainda guarda a inocência.
As evidências de linguagem utilizadas por Camus não amenizam a estranheza que Meursault realizou até o fim. Camus, algumas décadas depois, parece ter definido o indefinível: “Não sou daqui, mas também não sou de outro lugar. E
o mundo não é senão uma paisagem desconhecida, onde o coração já não encontra apoio. Estrangeiro, quem pode saber o que este nome significa? Estrangeiro – confessar a mim mesmo que tudo me é estrangeiro”.