Biografar Duchamp é entrar em contato com uma vida enigmática, porém tranqüila, quase ascética – reflexos de uma personalidade que pouco foi afetada pelos dilemas existenciais. Isso não quer dizer que tenha vivido na superfície das coisas. Pelo contrário. Duchamp foi um artista capaz de levar o cotidiano para a arte, devolvendo-o sob prismas não experimentados ainda.
É interessante ressaltar que uma vida sem sobressaltos – uma vida feliz – concebeu uma obra revolucionária, a ponto de Octavio Paz dizer que Duchamp foi o artista mais influente do século 20. Determinadas pessoas, não restam dúvidas, são mais importantes que suas épocas. Estão à frente do tempo. Duchamp é uma delas, e no lado oposto da idéia que se faz do artista como, por exemplo, Picasso.
Negando-se o papel fátuo de estrela, Duchamp continua sendo pouco conhecido. Outra coisa não se poderia esperar de uma vida tão sutil e de uma obra tão radical. Conhecer Duchamp, por outro lado, é constatar que para ele não havia distinção entre viver e fazer.
É por esta via que biografarei Duchamp, tendo como fontes principais Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido, de Pierre Cabanne; Duchamp: uma biografia, de Calvin Tomkins; e Marcel Duchamp ou o castelo da pureza, de Octavio Paz.
Estou diante de uma mente prodigiosa, de um artista que preferia jogar xadrez do que pintar metros e metros de tela.